quinta-feira, 1 de abril de 2021

O Dentista Amoroso

 

MEU ARQUIVO DE MATERIAL JORNALÍSTICO: VEREDAS 6

- Um pouco de história. Começou com o meu pai, professor de geografia e história. Ele costumava guardar recortes de jornais e revistas. Além disso ele e eu gravávamos vários programas de televisão em fitas VHS: filmes de arte por causa de suas histórias, filmes ruins por causa de seus efeitos especiais, vídeos engraçados do "Domingão do Faustão", reportagens, documentários como “Xingu primeira série” e séries como "Holocausto A Saga da Família Weiss" e etc. Em 1998 o videocassete já estava estragado e as fitas abandonadas. Meu pai se afastou do magistério em meados de 2005, mas os recortes e revistas e jornais antigos foram abandonados muito muito antes. Mas minha memória fazia o antigo prazer de guardar pedaços da história humana ainda pulsar e, quando entrei na faculdade para estudar jornalismo; cismei que montar um arquivo de material jornalístico poderia ajudar-me a fazer o meu jornal.

Acabei juntando alguma coisa. Querem conhecer? Vamos lá.


10 - Se não fossem os dentes, não acharia a mulher tão linda. “Isso é carência e manifestação do desejo egoísta de que só você ache ela bonita e que, portanto, só você mereceria o desejo recíproco por parte dela. Carência, desejo egoísta e medo de traição.” Ah, cale-se Freud e fique com o seu charuto recalcado! Mas onde estávamos?

"Fundo de Apoio à Cultura apresenta FESTIVAL DO TEATRO BRASILEIRO Programação Gratuita! Residência, oficinas, encontros e apresentações Cena Distrito Federal XIX Edição Etapa Minas Gerais Belo Horizonte 07 a 27.08.17"


É um fôlder gigante, um dos maiores que já vi na vida. Pelo formato retangular seria um bom marcador de livro para o também gigante "Toda a Mafalda" que eu tenho. A fotografia foi realizada pela Rayssa Cole, mas não há identificação de qual é o espetáculo em que a mulher na fotografia atua. Seria uma propaganda injusta, é o que o pessoal que fez o fôlder deve ter pensado. Meu palpite é que seja um espetáculo de dança, pois há muita sugestão de movimento na fotografia.


Mas vamos lá, treinando a descrição para uma possível carreira de romancista. Ela deve ter trinta e poucos anos, pele clara, cabelos lisos escuros e que não parecem crescer muito além dos ombros. O vestido tem um desenho simples e é todo marrom.

Os olhos têm aquela maquiagem popular, de dois traços grossos e negros longos e paralelos e horizontais. “Maquiagem egípcia” é como se diz? A falta que faz uma irmã ou amiga! Discreto e também marcante.

O seu nariz é naquele formato que confunde nosso desejo: morder, beijar ou cutucar carinhosamente num “beijinho de esquimó”? Na dúvida: você faz tudo isso duas vezes.

O suor. O suor que faz o peito brilhar ao refletir a luz do palco. Suor também denota movimento, trabalho, intensidade; força por parte desta mulher.

(Mas qual era o nome do espetáculo, pessoal do fôlder! Ah! Preciso ir ao teatro, preciso assistir a espetáculos de dança! E eu tão vaidoso quanto a minha formação humanista…)

A sua boca. Nem sei descrever se aqueles lábios são grossos ou finos; e meu orgulho estilístico de escritor iniciante impede-me de registrar “medianos” ou “normais” e igualmente de sair pela tangente com um “perfeitos”. Embora eles sejam perfeitos mesmos. Eles estão tortos, sugerindo que ele estava dizendo algo enquanto dançava ou tentando expressar algo enquanto dança. Mas isso é trocar seis por meia dúzia, porque sabemos que a dança é mais uma forma de expressão humana.

Eu quero terminar aqui com a recomendação a mim mesmo que devo ir mais ao teatro. Já assisti, pela televisão, a um balé moderno sobre a Pequena Sereia e a Cinderela, além de um espetáculo do Grupo Corpo; mas isso é muito muito pouco.

quarta-feira, 31 de março de 2021

31 de março de 2021

 


Uma abelha tentando fazer o seu trabalho, enquanto um mamífero curioso a interrompe. Rio Acima, 2010.

Ontem fiquei sabendo do inesperado "encantamento" do escritor e psicanalista Contardo Calligaris. Fui tomado por memórias queridas imediatamente. Entre meados de 1999 e 2002, minha família assinou o jornal Folha de S. Paulo. E foi nessa época que comecei a montar meu arquivo de material jornalístico. O que incluía os artigos de autoria de Contardo Calligaris. Bom senso e muita inteligência, além, claro, do indefinível prazer de um pré aborrecente descobrindo um mundo novo.

Além de artigos do Contardo Calligaris eu tinha selecionado artigos de outros autores e de repente ocorreu-me que eu poderia usar eles para ajudar a fazer o meu blog ser diário. Eu leio rápido e artigos e textos semelhantes poderiam ser mais fáceis para eu comentar. Quem sabe? Não sei se vai dar certo, mas sei por qual autora começar. Enquanto isso, eu preparo os comentários de livros.

segunda-feira, 29 de março de 2021

29 de março de 2021

 


Minha prima materna Alícia e uma amiga. Rio Acima, 2010. Aniversário de minha mãe ou de meu pai, não lembro. Sou tão sociável quanto minha casa e minha família. Acho que é mais provável que seja aniversário de minha mãe mesmo. Aproveitar para mandar um abraço para minha prima Norly, mãe da Alícia. A amiga da Alícia segura uma boneca que esta tentando dizer para eu tentar mais uma vez investir na fotografia.


Vou tentar fazer as postagens deste blog serem sempre no domingo, na segunda e na quinta. Acho que é uma regularidade razoável até para um preguiçoso cabeça de vento como eu.


As próximas obras literárias a serem analisadas por aqui incluem “Carta a Meneceu”, do Epicuro; “A Conferência dos Pássaros”, do Farid Ud-Din Attar; além de uma surpresa. Além de voltar a escrever sobre o meu arquivo de material jornalístico. Então não saiam daí e me acompanhem. Ah, claro, o eixo principal desta primeira fase continua sendo o Joaquim Maria Machado de Assis. Mas agora serão os seus cinco principais romances.


domingo, 28 de março de 2021

Missa do Galo, 1899

 

Missa do Galo” (Páginas Recolhidas, 1899)


Sim, o conto de Machado de Assis Missa do Galo” faz por merecer toda toda fama que possui.


Pelo sorriso da Kalki Koechlin!, ainda bem que a leitura de “Missa do Galo” não foi o que eu esperava! Não foi bom, não foi ruim, foi… um vento…?

Na verdade eu não sei o que ela foi. A metáfora a imagem mais tradicional aqui seria a de um “tapa na cara”; mas isso poderia sugerir agressividade que deixa marca na pele. A marca deixada não foi na pele.

Ah… Não foi bom, não foi ruim, foi… um vento. Foi… Foi a Penélope Cruz em lágrimas naqueles seus olhinhos perfeitinhos sobre aquele breve breve instante em que “o Amor verdadeiro pareceu possível” [“Vanilla Sky” (“Vanilla Sky”, Penélope Cruz, Cameron Diaz, 2001, Cameron Crowe, Alejandro Amenábar, Mateo Gil, Tom Cruise, Kurt Russell, Jason Lee etc.) {*} ]. E também foi o meu vovô materno Valdir lamentando a sua solidão para mim e eu não percebendo a tempo (mas isso foi muito antes de 2017 e antes de 2017 eu conseguia ser ainda mais idiota do que eu sou agora).

Ler “Missa do Galo” não foi bom, não foi ruim, foi um vento. Foi uma possibilidade, uma chance, uma escolha, uma bifurcação, e um “e se...”. E o maior milagre do Universo, - a nossa vida -, é pouco mais do que isso. Eu espero que você já saiba disso. Espero mesmo.


“— Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.

Não quero parecer caliente, - pode ter alguém entendido de Freud lendo-me, internet é coisa traiçoeira- , mas a vontade que tenho é de chamar o Nogueira de tapado. Ou, indo mais longe até os braços da heresia mais imperdoável, dizer que Machado de Assis errou flagrantemente na coerência criando um narrador-personagem tão observador sagaz e ao mesmo tempo tão ingênuo. Mas é claro que não é o caso: Machado de Assis não erra e eu estou mesmo a sonhar com uma Conceição, empoderada e experiente, a perguntar-me pertinho pertinho de meu ouvido porque gosto de ler Paulo Mendes Campos e notas de rodapé em livros de filosofia

Quanta bobagem para fazer propagando de uma obra-prima, Aldrin! É a neblina de sugestões e ambiguidades cobrindo aqueles personagens, aquela sala naquela noite, impedindo-me também a mim de fazer uma observação inteligente aqui. Então, leitoras e leitores; vocês me acompanham nas leituras e releituras? Não é justo que apenas Nogueira e eu fiquemos com cara de bobo naquela sala do escrivão Meneses, à espera de um ano novo a curar a solidão de corações em chamas.



* Parece que “Vanilla Sky” é uma versão hollywoodiana de “Preso na Escuridão” (“Abre los Ojos”, Penélope Cruz, 1997, Alejandro Almenábar, Mateo Gil e etc.). Conheço “Vanilla Sky” e gosto do filme, não só pelos olhinhos da Penélope, mas por causa também do roteiro. Pesquisando os créditos para este texto, descobri esse “Abre los Ojos”. Parece-me bom, também porque ao continuar a pesquisa descobri que Alejandro e Mateo dirigiram e escreveram dois outros filmes que também me pareceram muito interessantes: “Alexandria” (“Agora”, Rachel Weisz, 2009, Alejandro Almenábar, Mateo Gil, Oscar Issac e etc.) e “Mar Adentro” (“Mar Adentro”, 2004, Javier Bardem, Alejandro Almenábar, Mateo Gil e etc.). Antes de terminar esta nota de rodapé, um instante para a justiça cultural. O Kurt Russell e o Jason Lee estão maravilhosos em “Vanilla Sky” e a crítica especializada não costuma olhar para esses dois como sendo bons atores. Bom bom, em “Vanilla Sky” eles estão ótimos; principalmente o Kurt.

Ah!, Ah!, quase me esqueci!!!! Escrevi que “Vanilla Sky” é uma versão hollywoodiana de “Abre los Ojos”; bom, queria falar mais sobre isso. Hollywood também fez uma versão do maravilhoso perfeito majestoso inesquecível inimitável insuperável e il magnifico “Deixe Ela Entrar” (“Låt den rätte komma in”, Lina Leandersson, 2008, Tomas Alfredson, John Ajvide Lindqvist, Kåre Hedebrant e etc.). Lembro-me que assisti a esta joia por acaso, quando a TV Cultura passava filme bom em horário nobre. Foi há muitos anos. Eles passavam um filme de ficção não muito comercial às 22 horas e na mesma semana passavam um documentário. Sobre os documentários lembro de um episódio curioso de guerra de propaganda. Uma vez eles passaram um documentário sobre a Leila Khaled e na semana seguinte eles passaram um documentário sobre o Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Acho curioso essas coisas de guerra de propaganda, embora a leitora e o leitor aí do outro lado do monitor deve estar achando essas minhas observações coisa de aborrecente; dada a gravidade dos assuntos tratados. Vai ver é uma auto defesa minha parte diante de um mundo cronicamente violento.


Faltou ainda dizer mais uma coisa. Escrevi grande parte deste texto sobre “Missa do Galo”, do Machado de Assis, escutando sem parar Ennio Morricone e sua música tema para “A Missão” (“The Mission”, Cherie Lunghi, 1986, Roland Joffé, Robert Bolt, Robert De Niro, Jeremy Irons e etc.).