segunda-feira, 24 de maio de 2021

Voltaire na Academia, 1746

 POETAS SÃO PROFETAS 

(VOLTAIRE NA ACADEMIA)


Excerto do Discurso de Recepção de Voltaire na Academia Francesa

Pronunciado em 9 de Maio de 1746.

(Tradução de J. Brito Broca)



“Selecções”, Voltaire. Prefácio de Wilson Lousada. Volume 32 da coleção “Clássicos Jackson” (W.M. Jackson Inc. Editores, São Paulo, 1952.)


1952, héin? O livro está bem conservado, apesar das fitas adesivas que tive que colocar nas dobras externas e internas em quantidade razoável.


1952, héin? Ler um livro antigo é sempre um prazer. “Selecções”! (risos) Aqui não há marcas dos antigos donos, como assinatura ou comentários nas margens. Será que este livro nunca foi lido e tenha “se machucado” na lombada e capa por causa do modo como ele foi guardado? Injustiça a ser vingada, cavalheiros irmãos! Enquanto sinto cheiro de livro velho, hipnotizo-me pelo tipo de letra utilizado e deslizo meus dedos pelas páginas que as décadas pintaram de marrom claro; eu penso no que este volume deve ter enfrentado em sua história até chegar às minhas mãos.


Coleção Clássicos Jackson. Esta coleção é bastante comum de vermos em sebos. Depois você repare: marrom escuro, capa dura, quadrado na parte de cima da lombada com o título e o autor, desenho da cabeça de um guerreiro da Grécia Antiga na parte debaixo da lombada. Ela deve ter feito bastante sucesso na sua época. Eu tenho outro volume da coleção, esta dedicada ao teatro grego clássico. As peças de teatro estão lá com os textos integrais, diferente deste volume em que as obras de Voltaire tem apenas trechos selecionados. Pode parecer chato, mas algumas obras só assim eu teria acesso; como por exemplo a monumental “Ensaio sobre os Costumes e o Espírito das Nações”. Acho difícil esta obra aparecer na íntegra em português. Mesmo porque apesar da popularidade e respeito no meio acadêmico e mesmo popular, o meu Voltaire não é assim tããão tããão querido para merecer tanta boa vontade por parte das editoras brasileiras.


Voltaire é um dos autores que eu mais amo. Um dos meus dez maiores meeesmo. Aprender com ele é um prazer. Este texto, o discurso em que ele fez na sua recepção para posse na Academia Francesa, é importante para ele por vários motivos. Patrióticos (como bom francês) e também por revelar algo daquela sua paixão por aprender, divulgar conhecimento e trabalhar a língua.

E se é importante para o Voltaire, é importante para mim também. De modo que antes do texto em si, como homenagem, que tal uma citação como preparação? E faz sentido, pois é do livro onde aprendi a amar Voltaire.


Em 1745, o poeta e sua matemática foram para Paris, quando Voltaire se tornou candidato à Academia Francesa. Para conseguir essa distinção inteiramente supérflua, ele se disse um bom católico, elogiou alguns jesuítas poderosos, mentiu incansavelmente, e em geral portou-se como a maioria de nós faz nesses casos. Fracassou; mas no ano seguinte conseguiu, e fez um discurso de posse que é um dos clássicos da literatura da França.

(A matemática a qual há referência no trecho é a Madame du Chatelet, mulher brilhante com a qual Voltaire viveu uma importante relação amorosa.)

Will Durant em “História da Filosofia” (1926). Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Editora Nova Cultural, 2000, São Paulo, SP; parte da coleção “Os Pensadores” (a edição verde-escuro com detalhes em dourado).


Mas antes do discurso, eu preciso comentar o prefácio do Wilson Lousada. O texto do Wilson é excelente, muito informativo. Algumas notas, vamos lá.

Voltaire é um autor mal compreendido. Demônio, santo? Devemos começar lembrando onde ele nasceu e cresceu: uma França absolutista e reacionária.


– Um liberal confiante.


– Confiante no progresso humano e um crítico secular. Não queria uma revolução, mas combatia a miséria e o fanatismo.


– Tão conservador quanto se espera de um homem rico que quer manter sua vida de luxo. Mas também humanamente contraditório em suas opiniões e atitudes. Muitas vezes, por exemplo, renegava os seus textos para agradar seus amigos nobres.


– Um homem de sua época, principalmente diante da religião. Naquela época a religiosidade tornou-se mais particular e íntima; ao mesmo tempo que o clero católico e a política tinham uma união não muito democrática. Voltaire era um deísta e isso também marca sua posição diante dos trabalhos metafísicos dos filósofos.


– Veio de uma família não muito feliz. O pseudônimo “Voltaire” talvez tenha sido adotado também por demonstrar um afastamento da família. Do pai: praticidade e o gosto pelo luxo. Da mãe: graça e intelecto. Da escola jesuíta: o desejo de aplausos.


– Neste desejo por aplausos e reconhecimento, Voltaire exibia uma dose considerável de ingenuidade. Ingenuidade mesmo! Em uma interpretação de fundo psicológico: a origem era a falta de reconhecimento de suas qualidades quando vivia na casa da família?


– Tinha a alma de um jornalista, de um divulgador. Dizer o que pensa sobre o mundo que ele conhecia e que queria conhecer cada vez mais.


- “Cartas Sobre os Ingleses” ocupa uma posição central na obra de Voltaire. Em um autor tão produtivo e contraditório, é naquele livro que poderíamos chegar perto de dizer “ali há um resumo de seu pensamento, o coração de sua visão de mundo”.


– Entre os autores que Voltaire mais admirava, devemos lembrar de um nome pouco conhecido hoje: o inglês Bolinbroke. Irmão de intelecto mesmo.


– Não era muito fã do “povão”, não próximo da gente humilde; mas desejava o fim da miséria. Que, pelo menos, a elite fosse mais inteligente.


– Experiências de física e química, amor pela Madame du Chatelet (ela, por sua vez, uma apaixonada por matemática), prisão na famosa Bastilha, fugas e agressões sofridas no meio da rua. Antes da calmaria na Suécia, a vida de Voltaire foi intensa.


– E esta residência na Suécia, a Les Délices, transformou-se no centro do saber de toda uma Europa que está se transformando radicalmente.


– Contraditório, sedento por luxo e aplausos, conservadorismo político em maior grau do que se espera de um iluminista, de um caráter muitas vezes realmente frívolo; mas no “Caso Jean CalasVoltaire encontraria a redenção.


 – Finalmente um moralista burguês, um racionalista, um liberal; em defesa da liberdade e de Deus.


E quando digo aqui, senhores, que foram os grandes poetas que determinaram o espírito das línguas, nada avanço de vós desconhecido. Os Gregos só escreveram a história quatrocentos anos depois de Homero. A língua grega recebeu deste grande pintor da natureza a superioridade em que se colocou ante a de todos os povos da Ásia e da Europa. Foi Terêncio quem, entre os Romanos, falou pela primeira vez com pureza elegante; foi Petrarca quem, depois de Dante, deu à língua italiana essa amenidade, essa graça que ela tem sempre conservado; a Lope de Vega deve o espanhol sua nobreza e sua pompa; foi Shakespeare quem, embora bárbaro, emprestou ao inglês a força e a energia que ninguém pôde aumentar, depois, sem violentá-la e, por conseguinte, sem enfraquecê-la. De onde vem esse grande privilégio da poesia de formar e fixar, afinal, o espírito dos povos e das respectivas línguas? A causa é manifesta: os primeiros versos bons, e mesmo os que o são apenas na aparência, gravam-se na memória pelo efeito da harmonia. Seus volteios naturais e ousados se nos tornam familiares. Os homens, imitadores natos, adquirem insensitivamente a maneira de exprimir e mesmo de pensar dos primeiros cuja imaginação dominou a dos outros. Não concordais, senhores, se eu vos disser que o verdadeiro mérito e a reputação de nossa língua começaram com o autor do Cid e de Cinna?” 

O destino da língua francesa. Naquele ano, 1746, uma parte razoável da Europa já estava familiarizado com a língua francesa. Ainda não era a “língua culta” ou “segunda língua”, para isso ainda falta poucos anos; mas o prestígio já era bem grande. Mesmo assim, Voltaire tem pressa. Como bom francês, naturalmente. Mas, repitamos, no Vaticano e na Rússia, a língua francesa já fazia sucesso. Mas como? Como uma língua amadurece e rompe fronteiras?

A poesia, o conhecimento do cotidiano das pessoas comuns. O conhecimento, também, dos clássicos: no caso francês: Malherbe, Corneille e Montaigne. Conhecer estes e respeitando as obras deles dar passos adiante. Prestar a atenção na cultura: o nosso teatro vai bem? As nossas escolas, como elas vão? Língua deve ser motivo de prioridade, tanto quanto as fronteiras de uma nação. Isso não é brincadeira de um político em campanha eleitoral, é a verdade mesmo.

E aqui no Brasil? Na década de 1970 aconteceu uma coisa que em qualquer livro de Geografia do colégio aparece devidamente explicado: o crescimento desordenado das cidades. A terra do campo fica nas mãos de poucos e as cidades ficam com gente demais. Não acho que seja preciso detalhar-me aqui para você que me lê: hospitais lotados, saneamento básico não chegando às casas já precárias, transporte público cada vez mais deficiente… E as escolas. Uma imprensa em crise de identidade por causa da internet e crise econômica. Bom bom, e quem defenderá a língua portuguesa se a situação esta assim? A língua é algo dinâmico e se mistura e se transforma mesmo; mas um pouquinho de cuidado no trato. Não é? (risos) Só mais um pouco mais de carinho. E, talvez, quem sabe, programar assistir a um sarau de poesia e assim testemunhar ao vivo o futuro ser anunciado. Pois aprendemos com Voltaire que na poesia uma língua decide livremente o que fazer com sua vida.

domingo, 23 de maio de 2021

Fale comigo, Pennywise!

 Fale comigo, Pennywise!

Neste texto estará o que eu escrevi ontem e os trens sobre hoje também.

Eu pego uma régua de plástico e fico comovido por ela. E muito comovido. É uma “régua promocional”, feita por encomenda de uma clínica odontológica. Olhem olhe esta mascote! Um dentinho sorridente segurando um cajado que na verdade é uma escova de dente gigante e com dentifrício! Não é bonitinho? Não é bonitinho? Ai, devo estar ruim da cabeça. Se bem que costumo ficar comovido com coisas fofinhas, como quando a gente está muito mórbido e tenta sentir saudade deste lado da terra. 

De sexta para sábado, dia 21 a 22 de maio de 2021, tive um dos meus melhores sonhos. Nítido, completo, bem-feito; eu quero dizer. Parecia um filme. Eu estava lutando contra aquele palhaço monstro, o Pennywise. Personagem famoso dos filmes de terror.
Eu nunca assisti a um dos filmes da série dele, não gosto de filmes de terror. No sonho eu lutei, mas fui derrotado. Não senti dor ou medo, na verdade, e isso foi uma das coisas mais legais do sonho; a história continuou. Era uma casa antiga transformada em museu. Os visitantes estavam conhecendo o seu interior, quando um saco plástico vazio de pipoca jogado ao chão começa a crescer muito. E se transforma no Pennywise e a história recomeça. Mas eu não “estava lá”, apenas eu era como um narrador onisciente. E bem, eu acordei na hora. Acordei normalmente, sem suor ou coração batendo acelerado. Nunca acordei mal por causa de um pesadelo, a propósito. E é até discutível se eu algum dia tive mesmo um pesadelo. Bom, mas vamos continuar. (*)
Se não foi por causa dos filmes, que nunca assisti (a não ser pedaços); o Pennywise deve ter vindo de um vídeo que eu assisti no YouTube. Era uma sátira de terror que ironizava aqueles vídeos promocionais do Iphone. É, é aqueles vídeos curtos e engraçados que no final toca aquela música “This Girl”, do Kungs Vs Cookin' On 3 Burners. (**). Neste vídeo acompanhamos uns caras dentro de um grande e escuro túnel. Acho que eles são investigadores de coisas paranormais, sei lá. A filmagem era aquela coisa tremida, semi profissional, estilo que virou quase ortodoxia cinematográfica desde o sucesso de “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999, Daniel Myrick, Eduardo Sánchez etc.). Câmera tremendo, para que os espectadores se sintam dentro da filmagem. Bom, no final do vídeo aparece, vindo do fim do túnel escuro, um palhaço monstro correndo pegar os caras. Deve ser daí que meu inconsciente pegou a ideia de usar o Pennywise no meu sonho. Mas e a casa museu de onde o sonho acontece? 
O meu inconsciente deve ter inspirado-se no filme “Caça-Fantasma” (Ghostbusters, Kate McKinnon, 2016, Paul Feig, Katie Dippold, Ivan Reitman, Dan Aykroyd, Harold Ramis e etc.), e a cena dentro do The Aldridge Mansion Museum (“Museu da Mansão Aldridge”, em tradução livre). Como eu adoro ver o início deste filme (a sua primeira meia hora, mais ou menos) [***], meu inconsciente deve ter gostado de usar aquele cenário. Se bem que no sonho o local era mais iluminado pelo sol e o imobiliário tinha mais madeira e era mais colorido.
Mas uma coisa é saber de onde o meu inconsciente tirou os elementos para o sonho, outra coisa é saber o que ele queria dizer-me por meio do sono. Será que eu estava com medo do que ia acontecer no sábado? No sábado eu reabri a lojinha de artesanato. Duas vezes por semana, é a ideia. Almocei dois ovos cozidos e uma maçã. E li um texto do Voltaire. E pensei em como ganhar dinheiro. E não sonhei mais.



* Eu demorei anos, por medo e também por falta de oportunidade (neste período as videolocadoras foram praticamente extintas); mas um dia eu assisti finalmente ao filme “O Homem Elefante” (The Elephant Man, 1980, John Merrick, David Lynch, Christopher De Vore, Eric Bergren, Frederick Treves, Ashley Montagu e etc.). Desde criança, eu fiquei meio que traumatizado igualmente pela capa do filme (!) e pela história contada no filme. Mas um dia eu assisti e gostei muito. A cena do trem é uma das glórias de toda a história do cinema. Bom, bom, não gosto de filmes de terror; mas posso animar-me a assistir ao primeiro Pennywise porque ontem eu descobri que quem faz o palhaço é um daqueles atores que a gente conhece de rosto e não de nome. Um daqueles nomes que o cinema não gosta de reservar lugares de destaque. É o Tim Curry! Procure imagens dele pela internet e também, como eu, fique encantado pelo seu talento e pela magia que é ser um ator e poder ser mil e uma personagens.

** Eu estou escutando “This Girl”, do Kungs Vs Cookin' On 3 Burners; sem parar. Que música gostosinha! E gostosinha de dançar. Pelo menos eu fico dançando na cadeira, aproveitando que ninguém está olhando. Nem sei do que fala a letra e não me importo. Se bem que eu deveria me importar, depois do episódio do “Walk this way”. Esta música do Aerosmith, composta pelo Joe Perry e Steven Tyler, é uma das composições mais inteligente que eu conheço. Se eu não tivesse preparado o texto para o meu programa na rádio comunitária…

*** Tem um monte de filmes que eu só gosto de assistir só o seu início. Na maioria das vezes filmes medianos, mas eu gosto muuuuito daquela parte em que os personagens são apresentados. As vezes, mas isso é mais raro, ao mudar de canal assisto a uma cena favorita que está no meio de algum filme. Mas isso também acontece.
Filosofando um pouco, podemos pensar que isso é coisa da época: “consumir pedaços” de uma obra de arte e ficar satisfeito. Quem sabe?

sábado, 22 de maio de 2021

Um Show em 2010


 Alexandre, vocalista e guitarrista do grupo musical Cogumelus Derrapantis. Rio Acima, 2010. Uma apresentação durante uma feira. Acho que era a Feira Fundo de Quintal ou uma das vezes em que há festival de cerveja artesanal. Não lembro. O grupo musical é bom e as poucas vezes em que conversei com Alexandre tive uma impressão muito boa. O grupo toca rock e um pouco de pop rock também.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Quem tem Sonho vai a Itu

Quem tem Sonho vai a Itu

“Adagiário Brasileiro”, de Leonardo Mota, 1979; com a ajuda dos filhos Moacir Mota e Orlando Mota.
(Editora Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1987, Segunda série da coleção “Reconquista do Brasil”. Volume 115. Capa do artista plástico Poty, ilustrações internas do artista plástico Aldemir Martins e prefácio de Paulo Rónai.)



Ituano come na gaveta.
(Os paulistas de Itu tem fama de sovinas e uma das histórias populares sobre isto inclui uma gaveta onde eles esconderiam pratos de comida, caso diante de uma visita inesperada.)
Pelo sorriso da Kalki Koechlin!, isso não é maravilhoso; leitoras e leitores? Pura cultura popular!!!! Pura cultura popular!!!! Vontade de recomeçar e entrar em uma universidade dizendo “quero continuar o trabalho do Luís da Câmara Cascudo, Leonardo Mota, Mário de Andrade e tantos outros!”

Quando se começou a falar sobre isso a respeito de Itu? Impossível saber, o que convida a especulações com poderosas asas. Um vereador em especial? Um prefeito em especial? Um livro escrito na capital paulista? Foi no século XIX, ou no século XVIII ou mesmo antes? Algum viajante ficou bravo com os preços do comércio, quando esteve em Itu de passagem? Este viajante podia ser um polonês fã de kung fu? 
Bom, acho que aqui já estou viajando demais.

Algum dia eu visitarei Itu, para reclamar do preço do cafezinho e do misto quente? Voltar a estudar? E aquela viagem científica-fotográfica pelo que resta do Cerrado, tanto ou mais destruído do que o Pantanal e a Amazônia? Ah, Aldrin...