quarta-feira, 13 de julho de 2022

Rede de Dormir, Cascudo

 

"Uma denúncia é a pergunta aos amigos hóspedes: "Dorme em cama ou em rede?"

Há, forçosamente, de ambas na residência ou no hotel do interior. Há poucos anos dizia-se, torcendo o lábio num esgar de desprezo: "É um homem cheio de luxos, de "bondades"; só dorme em cama!..."


"Uma condição essencial para antropologistas e etnógrafos é ser um bom poeta. Mesmo que não faça versos. Sem a poesia os seus trabalhos perdem, no plano da comunicação fiel e positiva, a graça verídica, a possibilidade justa, a idéia da vida, valendo, pela glacial explanação verídica, relatório de autópsia. Jamais darão, fora dos iniciados sonolentos que, em última análise renunciaram ao direito natural da vibração e do entusiasmo, nada mais do que um frio parecer de comissão de tomadas de contas em balanço de banco de crédito hipotecário. Não me diagam que a Ciência é nua e despida de ornatos e galanterias porque a Deusa Minerva, que devia entender dela, despojando-se das vestes alguma vez o fez para disputar um concurso de beleza."


"Ainda nos dias presentes há uma maioria alta de redes no quarto de dormir ao lado da cama bonitona. Serve para "o primeiro sono". Para "refrescar". Para "descansar". Depois vão fazer companhia à mulher. E muitos voltam para a rede, para "acabar o sono"."


REDE DE DORMIR - UMA PESQUISA ETNOGRÁFICA - Luís da Câmara Cascudo.

Antologia do Folclore Brasileiro, Cascudo

 

"Quero que saibam qual o motivo de se defenderem os índios de tal maneira. Hão de saber que eles são súditos tributários das Amazonas, e conhecida a nossa vinda, foram pedir-lhes socorro e vieram dez ou doze. A estas nós a vimos, que andavam combatendo diante de todos os índios como capitães e lutavam tão corajosamente que os índios não ousavam mostrar as espáduas, ao que fugia diante de nós, matavam a pauladas. Eis a razão por que os índios tanto se defendiam.

Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito comprido, entraçado e enrolado, na cabeça. São muito menbrudas e andam nuas em pêlo, tapadas as suas vergonhas, com os seus arcos e flechas nas mãos, fazendo tanta guerra como dez índios. E em verdade houve uma dessas mulheres que meteu um palmo de flecha por um dos bergantins, e as outras um pouco menos, de modo que os nossos bergantins pareciam porcos-espinhos."

(Frei Gaspar de Carvajal)


"Deve ser ainda mencionada aqui uma farsa, denominada SERRAÇÃO DA VELHA, indicadora de que já passou metade da quaresma. Essa brincadeira é organizada pelos soldados. Para a zombaria é escolhida, entre as moradoras da cidade, uma mulher já idosa, mas ainda coquete. Quando pois, é chegado o tempo, já essas mulheres estão preocupadas e temerosas de serem colhidas pela sorte. Faz-se uma figura recheada de palha, tão parecida quanto possível com a mulher em apreço, com trajes iguais aos que ela costuma usar, de modo a ser reconhecida imediatamente. Numa das mãos põe-se-lhe um rosário e na outra uma serra para indicar que o jejum quaresmal é cortado ao meio. Então a figura é posta numa padiola e, acompanhada pelos soldados com sabres desembainhados e archotes, é conduzida por quatro negros através da cidade, por entre a jubilosa gritaria dos negros e das crianças. Um grotesco mascarado abre o cortejo e, durante as paradas, lê o testamento da velha, composto com grande exagero, em que são vituperadas as suas vaidades da maneira mais inconveniente. Toda a tropilha aplaude furiosamente. Finalmente, chegando cortejo à residência da própria mulher, a figura é serrada em duas e queimada, o que sempre termina em pancadaria, porque os parentes da vítima se sentem igualmente ofendidos e procuram enxotar os indelicados visitantes."

(Johann Emmanuel Pohl)


"Começou a seguir um caminho muito longo. Lá adiante encontrou Acarajé e pediu-lhe que o ajudasse a preparar-se que lhe ensinaria o caminho. Ela o fez de boa vontade e ele indicou-lhe a estrada. Andou, andou e lá adiante encontrou umas pedras grandes com forma de gente que lhe pediram que ela os colocasse melhor. A menina com muito esforço conseguiu fazer e as pedras lhe ensinaram o seu caminho. Adiante encontrou Adjinacu (Cágado?) que também lhe pediu prestasse o serviço de auxiliá-lo no trabalho que estava fazendoe a menina prestou-se de boa vontade. Também Adjinacu mostrou-lhe o caminho. Muito adiante encontrou uma onça parida, a quem pediu que ensinasse o caminho e a onça lhe perguntou se não tinha medo de ser comida, repondeu que a comesse logo para acabar com a sua lida. A onça ensinou-lhe o caminho. Adiante encontrou um menino que batia feijão. Pediu que lhe ensinasse o caminho, e o menino disse que o fazia se ela o ajudasse."

(Raimundo Nina Rodrigues)


"A PIRANHA

Compõe-se de homens, mulheres e até crianças que formam uma grande roda, saindo ao meio dela um dos dançantes que executa passos variados ao tempo, em que os da roda girando à direita e à esquerda, cantam:

Chora, chora, piranha.

Torna a chorar, piranha:

Põe a mão na cabeça, piranha.

Piranha!

Põe a mão na cintura...

Piranha

Dá um sapateadinho.

Mais um requebradozinho...

Piranha

Diz adeus ao povo,

Piranha

Pega na mão de todos,

Piranha

A tal piranha faz o que se lhe manda, chorando, pondo a mão na cabeça, etc. Por fim conseguindo agarrar a mão de um qualquer dos da roda, puxa-o para o meio do círculo, tomando-lhe o lugar. Assim se continua."

(Antônio Americano do Brasil)


ANTOLOGIA DO FOLCLORE BRASILEIRO – Luís da Câmara Cascudo.

O Herói de Mil Faces, Campbell

 

“ “Lá”, disse ele, “vi a filha do rei, a mais bela mulher criada por Alá.” E passou a elogiar com entusiasmo a princesa Budur. “Seu nariz”, disse ele, “se assemelha ao gume de uma lâmina polida; as faces são como vinho tinto ou anêmonas cor de sangue; os lábios trazem o brilho do coral e da cornalina; o mel da sua boca é mais doce que o vinho envelhecido; seu sabor extinguiria o mais forte fogo do inferno. Sua língua é movida pelo mais alto grau do espírito e pela resposta pronta e engenhosa; o colo é sedução para todos que o vejam (glória Àquele que o construiu e lhe deu acabamento!); e, juntos, há também dois suaves e redondos antebraços; como disse dela o poeta Al-Walahan:
“Ela tem pulsos que, se as pulseiras não contivessem,
Sairiam de suas mangas em chuva de prata”. “ “



“ “Estrelas, escuridão, lâmpada, fantasma, orvalho, bolha,
Um sonho, um relâmpago, e uma nuvem:
Assim devemos olhar tudo o que foi feito” (Vajracchedika) “



Naqueles períodos, todo o sentido residia no grupo, nas grandes formas anônimas, e não havia nenhum sentido no indivíduo com a capacidade de se expressar; hoje, não há nenhum sentido no grupo – nenhum sentido no mundo: tudo esta no indivíduo. Mas, hoje, o sentido é totalmente inconsciente. Não se sabe o alvo para o qual se caminha.”


O HERÓI DE MIL FACES – Joseph Campbell.

(Tradução de Adail Ubirajara Sobral)

O Poder do Mito, Campbell, Bill e Betty

 

Já se disse que arte é fazer as coisas bem feitas.”


Já se disse, e bem, que a mitologia é a penúltima verdade – penúltima porque a última não pode ser transporta em palavras.”


Ah, é que o sonho é uma experiência pessoal daquele profundo, escuro fundamento que dá suporte às nossas vidas conscientes, e o mito é o sonho da sociedade. O mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado. Se o seu mito privado, seu sonho, coincide com o da sociedade, você está em bom acordo com seu grupo. Se não, a aventura o aguarda na densa floresta à sua frente.”

O PODER DO MITO – Joseph Campbell & Bill Moyers & Betty Sue Flowers.

(Tradução de Carlos Felipe Moisés)