quarta-feira, 31 de março de 2021

31 de março de 2021

 


Uma abelha tentando fazer o seu trabalho, enquanto um mamífero curioso a interrompe. Rio Acima, 2010.

Ontem fiquei sabendo do inesperado "encantamento" do escritor e psicanalista Contardo Calligaris. Fui tomado por memórias queridas imediatamente. Entre meados de 1999 e 2002, minha família assinou o jornal Folha de S. Paulo. E foi nessa época que comecei a montar meu arquivo de material jornalístico. O que incluía os artigos de autoria de Contardo Calligaris. Bom senso e muita inteligência, além, claro, do indefinível prazer de um pré aborrecente descobrindo um mundo novo.

Além de artigos do Contardo Calligaris eu tinha selecionado artigos de outros autores e de repente ocorreu-me que eu poderia usar eles para ajudar a fazer o meu blog ser diário. Eu leio rápido e artigos e textos semelhantes poderiam ser mais fáceis para eu comentar. Quem sabe? Não sei se vai dar certo, mas sei por qual autora começar. Enquanto isso, eu preparo os comentários de livros.

segunda-feira, 29 de março de 2021

29 de março de 2021

 


Minha prima materna Alícia e uma amiga. Rio Acima, 2010. Aniversário de minha mãe ou de meu pai, não lembro. Sou tão sociável quanto minha casa e minha família. Acho que é mais provável que seja aniversário de minha mãe mesmo. Aproveitar para mandar um abraço para minha prima Norly, mãe da Alícia. A amiga da Alícia segura uma boneca que esta tentando dizer para eu tentar mais uma vez investir na fotografia.


Vou tentar fazer as postagens deste blog serem sempre no domingo, na segunda e na quinta. Acho que é uma regularidade razoável até para um preguiçoso cabeça de vento como eu.


As próximas obras literárias a serem analisadas por aqui incluem “Carta a Meneceu”, do Epicuro; “A Conferência dos Pássaros”, do Farid Ud-Din Attar; além de uma surpresa. Além de voltar a escrever sobre o meu arquivo de material jornalístico. Então não saiam daí e me acompanhem. Ah, claro, o eixo principal desta primeira fase continua sendo o Joaquim Maria Machado de Assis. Mas agora serão os seus cinco principais romances.


domingo, 28 de março de 2021

Missa do Galo, 1899

 

Missa do Galo” (Páginas Recolhidas, 1899)


Sim, o conto de Machado de Assis Missa do Galo” faz por merecer toda toda fama que possui.


Pelo sorriso da Kalki Koechlin!, ainda bem que a leitura de “Missa do Galo” não foi o que eu esperava! Não foi bom, não foi ruim, foi… um vento…?

Na verdade eu não sei o que ela foi. A metáfora a imagem mais tradicional aqui seria a de um “tapa na cara”; mas isso poderia sugerir agressividade que deixa marca na pele. A marca deixada não foi na pele.

Ah… Não foi bom, não foi ruim, foi… um vento. Foi… Foi a Penélope Cruz em lágrimas naqueles seus olhinhos perfeitinhos sobre aquele breve breve instante em que “o Amor verdadeiro pareceu possível” [“Vanilla Sky” (“Vanilla Sky”, Penélope Cruz, Cameron Diaz, 2001, Cameron Crowe, Alejandro Amenábar, Mateo Gil, Tom Cruise, Kurt Russell, Jason Lee etc.) {*} ]. E também foi o meu vovô materno Valdir lamentando a sua solidão para mim e eu não percebendo a tempo (mas isso foi muito antes de 2017 e antes de 2017 eu conseguia ser ainda mais idiota do que eu sou agora).

Ler “Missa do Galo” não foi bom, não foi ruim, foi um vento. Foi uma possibilidade, uma chance, uma escolha, uma bifurcação, e um “e se...”. E o maior milagre do Universo, - a nossa vida -, é pouco mais do que isso. Eu espero que você já saiba disso. Espero mesmo.


“— Não! qual! Acordei por acordar.

Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.

Não quero parecer caliente, - pode ter alguém entendido de Freud lendo-me, internet é coisa traiçoeira- , mas a vontade que tenho é de chamar o Nogueira de tapado. Ou, indo mais longe até os braços da heresia mais imperdoável, dizer que Machado de Assis errou flagrantemente na coerência criando um narrador-personagem tão observador sagaz e ao mesmo tempo tão ingênuo. Mas é claro que não é o caso: Machado de Assis não erra e eu estou mesmo a sonhar com uma Conceição, empoderada e experiente, a perguntar-me pertinho pertinho de meu ouvido porque gosto de ler Paulo Mendes Campos e notas de rodapé em livros de filosofia

Quanta bobagem para fazer propagando de uma obra-prima, Aldrin! É a neblina de sugestões e ambiguidades cobrindo aqueles personagens, aquela sala naquela noite, impedindo-me também a mim de fazer uma observação inteligente aqui. Então, leitoras e leitores; vocês me acompanham nas leituras e releituras? Não é justo que apenas Nogueira e eu fiquemos com cara de bobo naquela sala do escrivão Meneses, à espera de um ano novo a curar a solidão de corações em chamas.



* Parece que “Vanilla Sky” é uma versão hollywoodiana de “Preso na Escuridão” (“Abre los Ojos”, Penélope Cruz, 1997, Alejandro Almenábar, Mateo Gil e etc.). Conheço “Vanilla Sky” e gosto do filme, não só pelos olhinhos da Penélope, mas por causa também do roteiro. Pesquisando os créditos para este texto, descobri esse “Abre los Ojos”. Parece-me bom, também porque ao continuar a pesquisa descobri que Alejandro e Mateo dirigiram e escreveram dois outros filmes que também me pareceram muito interessantes: “Alexandria” (“Agora”, Rachel Weisz, 2009, Alejandro Almenábar, Mateo Gil, Oscar Issac e etc.) e “Mar Adentro” (“Mar Adentro”, 2004, Javier Bardem, Alejandro Almenábar, Mateo Gil e etc.). Antes de terminar esta nota de rodapé, um instante para a justiça cultural. O Kurt Russell e o Jason Lee estão maravilhosos em “Vanilla Sky” e a crítica especializada não costuma olhar para esses dois como sendo bons atores. Bom bom, em “Vanilla Sky” eles estão ótimos; principalmente o Kurt.

Ah!, Ah!, quase me esqueci!!!! Escrevi que “Vanilla Sky” é uma versão hollywoodiana de “Abre los Ojos”; bom, queria falar mais sobre isso. Hollywood também fez uma versão do maravilhoso perfeito majestoso inesquecível inimitável insuperável e il magnifico “Deixe Ela Entrar” (“Låt den rätte komma in”, Lina Leandersson, 2008, Tomas Alfredson, John Ajvide Lindqvist, Kåre Hedebrant e etc.). Lembro-me que assisti a esta joia por acaso, quando a TV Cultura passava filme bom em horário nobre. Foi há muitos anos. Eles passavam um filme de ficção não muito comercial às 22 horas e na mesma semana passavam um documentário. Sobre os documentários lembro de um episódio curioso de guerra de propaganda. Uma vez eles passaram um documentário sobre a Leila Khaled e na semana seguinte eles passaram um documentário sobre o Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Acho curioso essas coisas de guerra de propaganda, embora a leitora e o leitor aí do outro lado do monitor deve estar achando essas minhas observações coisa de aborrecente; dada a gravidade dos assuntos tratados. Vai ver é uma auto defesa minha parte diante de um mundo cronicamente violento.


Faltou ainda dizer mais uma coisa. Escrevi grande parte deste texto sobre “Missa do Galo”, do Machado de Assis, escutando sem parar Ennio Morricone e sua música tema para “A Missão” (“The Mission”, Cherie Lunghi, 1986, Roland Joffé, Robert Bolt, Robert De Niro, Jeremy Irons e etc.).

quinta-feira, 25 de março de 2021

Trio em Lá Menor, 1896

 

Trio em Lá Menor” (Várias Histórias, 1896)


Então, leitoras e leitores; vocês sabem? Você sabe? Não se torce pelo Atlético ou pelo Cruzeiro, se prefere ouvir Beatles ou Rollins Stones, se gosta de muita farofa ou de muita muita farofa, ou se acha graça nas piadas do Monty Python ou se você é uma pessoa que-não-acha-graça-no-humor-do-Monty-Python-logo-você-seria-uma-pessoa-chata-demais-o-que-faz-aqui-no-meu-blog-cai-fora-agora. Não, não! Eu quero saber se você sabe que dentro do seu peito há uma ou duas estrelas. É, igual a Maria Regina. Mas nem a Maria Regina sabia o que ela tinha. É difícil saber, mesmo porque de longe as duas estrelas podem parecer apenas uma por causa da distância e brilho. Muito difícil. Machado de Assis sabia. Mas não conta, porque Machado é Machado e ele sabe tudo mesmo. Nós, poeira efêmera, por outro lado; ficamos na ignorância se somos uma estrela solitária em um canto de um universo infinito e infinito também em indiferença, ou se a solidão nossa é na forma de uma dança cega entre duas estrelas. Enquanto isso sonhamos, se tivermos coração forte, não com ouro, mas sim com respostas às nossas perguntas.


Buscamos em nossa caminhada os alvos de nossos desejos e interesses. Se a leitora ou o leitor aqui for mais idealista, sinta-se livre para usar o termo “sonhos”.

Quem já assistiu a “O Discreto Charme da Burguesia” (“Le charme discret de la bourgeoisie”, 1972, Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière e etc.), deve se lembrar, - até por influência de comentários prévios -, da sua cena mais famosa. A cena do jantar. Bom bom, também gosto desta cena. E cito o livro atraente “Minhas Mulheres e Meus Homens”, de Mario Prata; onde é contada uma história de bastidores entre Buñel e Carrière a respeito desta cena. Uma história comovente que termina no hospital e com um beijo. Leiam Mario Prata. Bom bom, mas não considero, filosoficamente, a cena do jantar a mais importante cena de “O Discreto Charme da Burguesia”. A mais importante cena para mim deste filme é outra. Muito repetida, inclusive. Os personagens correndo desorientados por uma estrada. Então, leitora ou leitor aqui deste blog; você esta correndo cegamente e sem parar em uma estrada? Ou já achou os pontos cardeais em sua vida?


A verdade pede que diga que esta moça pensava amorosamente em dois homens ao mesmo tempo, um de vinte e sete anos, Maciel — outro de cinqüenta, Miranda. Convenho que é abominável, mas não posso alterar a feição das coisas, não posso negar que se os dois homens estão namorados dela, ela não o está menos de ambos. Uma esquisita, em suma; ou, para falar como as suas amigas de colégio, uma desmiolada. Ninguém lhe nega coração excelente e claro espírito; mas a imaginação é que é o mal, uma imaginação adusta e cobiçosa, insaciável principalmente, avessa à realidade, sobrepondo às coisas da vida outras de si mesmas; daí curiosidades irremediáveis.

Alma feminina, narrador conversando com as leitas e leitores que se sentem cúmplices no ato de conhecer sem preconceitos esses personagens e suas histórias, um espelho sincero para conhecermos a nós mesmos, uma história bonita e profunda, um óculos (ou microscópio ou luneta) para conhecermos o mundo verdadeiro. Mais um conto de Machado de Assis, apenas. E isso é tanto tanto... E cada vez mais, quando a gente o relê! E só estamos começando aqui.


Na próxima postagem vamos descobrir o último conto de Machado de Assis de minha antologia de 17 contos dele. Justamente aquele conto que é o mais celebrado. A ordem cronológica coincidiu com o gosto de leitores e críticos; mas será que (****) faz por merecer essa fama toda?