“Missa
do Galo” (Páginas Recolhidas,
1899)
Sim,
o conto de Machado
de Assis “Missa
do Galo” faz por merecer toda
toda fama que possui.
Pelo
sorriso da Kalki
Koechlin!, ainda bem que
a leitura de “Missa do Galo”
não foi o que eu esperava! Não foi bom, não foi ruim, foi… um
vento…?
Na
verdade eu não sei o que ela
foi. A metáfora a imagem
mais tradicional aqui seria a
de um “tapa na cara”; mas
isso poderia sugerir agressividade que deixa marca na pele. A
marca deixada
não foi na pele.
Ah…
Não foi bom, não foi ruim, foi… um vento. Foi…
Foi a
Penélope Cruz
em
lágrimas naqueles seus olhinhos perfeitinhos
sobre aquele breve breve
instante em que “o Amor verdadeiro pareceu
possível” [“Vanilla Sky”
(“Vanilla Sky”,
Penélope Cruz,
Cameron Diaz,
2001,
Cameron Crowe,
Alejandro Amenábar,
Mateo Gil,
Tom Cruise, Kurt
Russell,
Jason Lee etc.)
{*} ].
E também
foi o meu vovô materno Valdir
lamentando a sua
solidão para mim e eu não percebendo
a tempo (mas isso foi muito antes de 2017 e antes de 2017 eu
conseguia ser ainda mais idiota do que eu
sou agora).
Ler
“Missa do Galo”
não foi bom, não foi ruim, foi um vento. Foi uma possibilidade, uma
chance, uma escolha, uma bifurcação, e um “e se...”.
E o maior milagre do
Universo, - a nossa vida -, é pouco mais do que isso. Eu espero que
você já saiba disso. Espero
mesmo.
“— Não!
qual! Acordei por acordar.
Fitei-a
um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que
acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa
observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito,
depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse
justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou
aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.”
Não
quero parecer caliente,
- pode ter alguém entendido de Freud
lendo-me, internet é coisa
traiçoeira- , mas a vontade
que tenho é de chamar o Nogueira de tapado. Ou, indo mais longe até
os braços da heresia mais
imperdoável, dizer que
Machado de Assis
errou flagrantemente
na coerência criando um narrador-personagem tão observador
sagaz e ao mesmo tempo tão ingênuo.
Mas é claro que não é o caso: Machado
de Assis não erra e eu
estou mesmo
a sonhar com uma Conceição,
empoderada e experiente,
a perguntar-me pertinho pertinho
de meu ouvido porque
gosto de ler Paulo Mendes
Campos e notas de rodapé
em livros de filosofia…
Quanta
bobagem para fazer propagando
de uma obra-prima, Aldrin! É a neblina de sugestões e ambiguidades
cobrindo aqueles personagens,
aquela sala naquela noite,
impedindo-me também
a mim de
fazer uma observação inteligente
aqui.
Então, leitoras e leitores; vocês me acompanham nas
leituras e releituras? Não é
justo que apenas Nogueira e
eu fiquemos com cara de bobo naquela sala do escrivão Meneses, à
espera de um ano novo a curar a
solidão
de corações em chamas.
*
Parece que “Vanilla Sky”
é uma versão hollywoodiana de “Preso na Escuridão” (“Abre
los Ojos”, Penélope
Cruz, 1997,
Alejandro Almenábar,
Mateo Gil
e etc.). Conheço “Vanilla Sky” e gosto do filme, não só pelos
olhinhos da Penélope,
mas por causa também do roteiro. Pesquisando os créditos para este
texto, descobri esse “Abre los Ojos”. Parece-me bom, também
porque ao continuar a
pesquisa descobri que Alejandro
e Mateo
dirigiram e escreveram dois outros filmes que também me pareceram
muito interessantes: “Alexandria” (“Agora”,
Rachel Weisz,
2009, Alejandro Almenábar,
Mateo Gil,
Oscar Issac
e etc.) e “Mar Adentro” (“Mar Adentro”,
2004, Javier Bardem,
Alejandro Almenábar,
Mateo Gil
e etc.). Antes de terminar esta nota de rodapé, um instante para a
justiça cultural. O Kurt
Russell e o Jason
Lee estão maravilhosos
em “Vanilla Sky” e a crítica especializada não costuma olhar
para esses dois como sendo bons atores. Bom bom, em “Vanilla Sky”
eles estão ótimos; principalmente o Kurt.
Ah!,
Ah!, quase me esqueci!!!! Escrevi que “Vanilla Sky” é uma versão
hollywoodiana de “Abre los Ojos”; bom, queria falar mais sobre
isso. Hollywood também fez uma versão do maravilhoso perfeito
majestoso inesquecível inimitável
insuperável e il
magnifico “Deixe Ela Entrar”
(“Låt den rätte komma in”,
Lina Leandersson,
2008, Tomas Alfredson,
John Ajvide Lindqvist,
Kåre Hedebrant
e etc.). Lembro-me que
assisti a esta joia por acaso, quando a TV Cultura passava filme bom
em horário nobre. Foi há
muitos anos. Eles passavam um filme de ficção não
muito comercial às 22 horas
e na mesma semana
passavam um documentário. Sobre os documentários lembro de um
episódio curioso de guerra de
propaganda. Uma vez eles
passaram um documentário sobre a Leila Khaled e na semana seguinte
eles passaram um
documentário sobre o Holocausto na Segunda Guerra Mundial. Acho
curioso essas coisas de guerra de propaganda, embora a leitora e o
leitor aí do outro lado do monitor deve estar achando essas minhas
observações coisa de aborrecente;
dada a gravidade dos assuntos tratados. Vai ver é uma auto defesa
minha parte diante
de um mundo cronicamente violento.
Faltou
ainda dizer mais uma coisa. Escrevi grande parte deste texto sobre
“Missa do Galo”, do Machado
de Assis, escutando sem
parar Ennio
Morricone e sua música
tema para “A Missão” (“The Mission”,
Cherie Lunghi,
1986, Roland Joffé,
Robert Bolt,
Robert De Niro,
Jeremy Irons
e etc.).