“Carta
sobre a Felicidade (a Meneceu)”; de Epicuro (341?a.C.
- 270?a.C.)
Apresentação
e tradução de Álvaro Lorencini e Enzo Del Carratore.
(Editora
Unesp, segunda
reimpressão da sua primeira edição; 1997; São
Paulo)
((“Texto
baseado na edição de G. Arrighetti, Epicuro.
Opere,
Torino, 1973.”))
(((
Vale a pena, ainda,
mencionar o tipo de papel utilizado porque ele
é bonito e gostoso de manusear. Tornando-se, portanto, um dos
destaques da experiência afetiva da leitura deste livro. O
papel é o “Pólen 80 g/m2”. E já que estamos aqui, registrar
que o
livro é minúsculo e fino; um dos livros menores e mais finos que eu
tenho. Mais um detalhe afetivo que tornou, - e torna -, a sua
leitura toda
especial.)))
Ser
feliz é comer sem medo apenas um bombom depois
da sopa sem graça
durante o Carpe Diem.
Não
entendeu? Vou explicar.
As
vezes você pode acrescentar vegetarianismo, uma viagem só com uma
mochila e pouco dinheiro no bolso pela Índia, algum tempo em uma
fazenda comunitária no interior do Paraná ou uma comunidade de
surfistas no litoral da Califórnia, Estados Unidos. Você pode, mas
isso não é exatamente fundamental. Fundamental fundamental
meeeesmo
é decidir comer um bombom, não ter medo e o Carpe
Diem!.
Ainda não entendeu? Então vai mesmo a explicação mais longa.
Eu
anotei “2001”, pois costumo anotar o ano em que compro
determinado o livro; mas as vezes me esqueço e isso gera confusão
nas datas. Não sei se foi 2001 mesmo ou
foi um ano antes.
Será que ainda estava no colégio ou já
tinha sido convidado a retirar-me de lá e eu
já estava
no supletivo?
Acho
que foi 2001 mesmo. Ainda estava no colégio e já vivia um caso
indecoroso com a filosofia.
Comprei
este livro após assistir a uma palestra sobre Epicuro
na Puc-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais). Sobre
a palestra lembro-me apenas de um detalhe: eu era um dos mais jovens
na plateia e, com sono, quase dormi justamente na hora em que o
palestrante olhou para mim. Eu estava sentado
algumas cadeiras atrás da primeira fileira, mas eu estava numa
posição central. Espero que o palestrante não tenha se sentido
ofendido, pois
eu gostei de ter ido.
Logo depois da palestra, do lado de fora, havia uma barraquinha
vendendo livros e foi ali que comprei a
“Carta sobre a Felicidade”.
O
epicurismo
é uma escola de pensamento que se destaca entre
outras escolas de pensamentos
por vários motivos, mas há dois motivos mais citados entre
os estudiosos.
Um é que ele é quase idêntico a uma postura liberal moderna não
religiosa muito comum no Ocidente, o
que não é pouco dado que Epicuro
viveu
séculos antes de Cristo.
E outro motivo é que sendo criação de Epicuro,
pouquíssimas alterações na doutrina aconteceram nesses séculos
todos mesmo
com
tantos epicuristas que apareceram depois.
Mais de dois mil anos e praticamente nada mudou! Incrível! Claro que
Cristo
e Marx,
por exemplo, podem torcer o nariz e dizer que isso é sinal que
a doutrina epicurista é uma pedra pobre
e blá blá…
Não
deixa de ser uma crítica razoável.
Mas
qual é a doutrina da escola de pensamento epicurista? Ela é ampla,
cobrindo
com
suas opiniões campos como a
lógica e política; mas é
na ética que o epicurismo mais
encantou a posteridade.
E
o que a ética epicurista ensina, resumidamente? Bom, é um bom senso
materialista temperado com ascetismo e defesa da liberdade e
independência
humana. Um
detalhe encantador é o apelo de que somos livres e que devemos ser
independentes; e de que não precisamos temer nem a morte, nem o
acaso e nem o destino.
-
Depois daquela sopa no jantar, quente demais e cheia de legumes
demais; eu como de sobremesa três bombons. É a melhor parte! Devo
então comer apenas um bombom? É esse o “espírito”, o
“refrão”
da coisa?
-
É por aí. A questão é evitar “eu preciso sempre dos três
bombons”, mas também evitar contentar-se com um bombom porque
acredita
que no futuro você
poderá ter apenas
a opção de um bombom. Não é isso, não é
essa postura diante do futuro.
É para ser independente em relação ao seu gosto por bombons. Eu
consigo comer só um bombom e fico feliz com isso. Saber
desejar os bombons na hora que a sobremesa chegar e não sofrer por
causa disso. E vai ser até mais gostoso quando você decidir,
racionalmente, comer dois bombons ou
mais as vezes.
-
Essa moderação quanto aos desejos… Essa postura racional, esse
“sangue frio” diante do mundo e do futuro… Lembro aqui do
estoicismo. O epicurismo e o estoicismo tem muitos pontos em comum,
mas quais seriam as diferenças?
-
Duas
diferenças importantes é que no epicurismo o apelo que o humano é
livre é fundamental e outra diferença é a postura de Epicuro
diante dos deuses. É meio ambíguo. Acreditando no materialismo
de Demócrito,
seria coerente dizer que os deuses não existem; mas acho que isso
também seria meio perigoso para os membros do epicurismo... Então
Epicuro
diz que os deuses do Olimpo podem servir de inspiração para
o nosso
desenvolvimento moral e boas obras que
queiramos realizar,
mas não podemos esquecer que os deuses estão na deles e não ficam
preocupados em nos punir ou nos ajudar. Mas já que foi mencionado a
escola de
pensamento estoica, é digno de nota que quando o cristianismo
tornou-se hegemônico no
mundo latino e grego;
entre o estoicismo e o cristianismo houve mais afinidades. Por outro
lado, o cristianismo e o epicurismo nunca se deram muito bem e
por pouco as palavras de Epicuro
se perderam durante o período medieval. Embora não seja um
“malvado”, não é difícil descobrir porque um epicurista não
era bem visto por um cristão: a divindade é indiferente a nós?, um
desejo não é intrinsecamente bom ou ruim depende do bom senso?; a
morte é nada?
Alguns
detalhes que eu achei mais interessantes na biografia de Epicuro.
Começou
a estudar filosofia já aos 14 anos e a influência platônica foi
grande no início. Não era exatamente um “imigrante ilegal”, mas
sofreu junto com sua família um pouco como se fosse um
nas
terras gregas. Teve formação militar e foi amigo de um importante
dramaturgo. Uma vez queria instalar a sua escola em um local, mas os
aristotélicos que moravam na
região
e ensinavam ali
não
gostaram e o expulsaram. Em outro lugar o mesmo quase aconteceu com
uma escola platônica, mas aqueles
platônicos foram tolerantes.
O famoso “Jardim de Epicuro”!: casa coletiva para os mestres,
horta ampla e onde o pessoal que vinha de muito longe estudar o
estoicismo podia armar uma barraca e dormir. É, parece mesmo uma
comunidade alternativa meio hippie
(filhos
das flores).
“Na
sua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que o
sábio, que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se
comporta de modo absolutamente
indiferente perante a morte, que bem compreende a finalidade da
natureza, que discerne que o bem supremo está nas coisas simples e
fáceis de obter, e que o mal supremo ou dura pouco, ou só nos causa
sofrimentos leves? Que nega o destino, apresentado por alguns como o
senhor de tudo, já que as coisas acontecem
ou por necessidade, ou por acaso, ou por vontade nossa; e que a
necessidade é incoercível, o acaso, instável, enquanto nossa
vontade é livre, razão pela qual nos acompanham a censura e o
louvor?”
A
linguagem de “Carta sobre a Felicidade” é clara e direta, mas
essa virtude pode virar defeito se a leitora ou o leitor não prestar
a atenção. O texto pode parecer vago demais ou óbvio demais. É
preciso querer
compreender, manter o senso crítico e ao mesmo tempo abrir a mente,
é preciso
silêncio interior. Desafio
semelhante acontece com quem não lê com atenção “A Arte da
Guerra”, de Sun Tzu; a profundidade daquelas metáforas orientais
escorrem pelos dedos dos
leitores apressados e/ou arrogantes.
Há
um elemento fundamental aqui no
epicurismo:
a prudência aliada com uma profunda racionalidade. Como ter o
conhecimento seguro para discernir entre os desejos quais são os
naturais, os inúteis, os necessários, aqueles que vão nos
prejudicar daqueles
que promovem a vida? É óbvio que a resposta “duas roupas, só
miojo, um par de sapatos e as estrelas como teto” não é
tudo.
É preciso saber discernir sempre.
Outro elemento fundamental no epicurismo é seu conceito de “eu”,
da
“consciência”; pois é assim que ele baseia-se para ensinar-nos
que não devemos temer a morte (não estaremos presentes na
hora)
e a dor física (ou é pouca e
superamos
ou grande demais e aí deixaremos de sentir e será uma espécie de
“sono”). Discernir os desejos; e o conceito do
“eu”. No Jardim de Epicuro, você não pode faltar às aulas
quando os mestres ensinarem essas matérias.
Uma
nota final. E ela vale também para o estoicismo. Se você quiser um
pouco de epicurismo em sua vida em 2021 você não pode esquecer de
ficar atualizado quanto às notícias sobre ciência. Tanto
epicuristas quanto estoicos orgulhavam-se, em suas épocas há
séculos e séculos atrás, de ter certeza de como funcionavam as
estrelas e a vida dos cavalos. Então, na hora de fazer a “transição”
para 2021 respeitando os antigos mestres, do epicurismo ou
estoicismo, é necessário ficar atualizado com as nossas notícias
sobre galáxias e genes.