OLHE
BEM A BORBOLETA PRETA
“Memórias
Póstumas de Brás Cubas”, 1881; Machado de Assis
“7.
Não dirás que tua vida é ou foi frustrada; vida alguma jamais se
frustra (Sêneca,
Nietzsche,
Henry James).”
– Jurandir
Freire Costa.
(Este
decálogo de Jurandir
Freire Costa é um dos textos mais
poderosos que conheço. Outro mandamento, o
terceiro, salvou-me a vida no momento em
que o suicídio mais teve próximo de mim. Ainda
pretendo escrever sobre este
episódio.)
Terminado
o aperitivo,
vamos ao prato principal.
“Memórias
Póstumas de Brás Cubas”: começa
a revolução de Machado de Assis
no romance mundial.
E o que eu tenho a escrever sobre?
Antes
de mais nada a pimenta, que ouvi dizer que moderadamente faz muito
bem para a saúde. O tempero, é preciso lembrar-se do tempero.
Quando e onde se fez determinada leitura. Por exemplo, eu nunca vou
me esquecer onde eu estava quando li o trecho sobre a disputa entre
cavaleiros diante da princesa e do rei em “Ivanhoé”. Cavalos,
lanças longas, corridas um contra o outro para ver quem cai e quem
permanece sob o cavalo… A cena é popular e vira e mexe é repetida
em desenhos e filmes. Com certeza você já viu. Eu estava no ônibus
passando pela rodoviária de Belo Horizonte para mais um dia na
faculdade de jornalismo quando li essas palavras de Sir Walter
Scott. E na memória afetiva a lembrança deste livro é
acompanhada pela visão, por meio daquela janela de ônibus, da
rodoviária municipal de Belo Horizonte. O barulho, a janela suja, o
sol já intenso castigando-me e eu na Europa medieval.
No
dia 9 de abril de 2021 eu estava em meu quarto arrumando minha
mochila. Eu ia junto com o meu pai para a Casa de Saúde de Rio
Acima, pois o meu pai estava ruim de saúde. Como ele estava muito
ruim, presumi que era prudente ter uma mochila de roupas caso eu
ficasse com ele internado. Fazia dias que meu pai tinha dores na
perna e essas dores foram, depois, para o corpo todo. Para piorar,
apareceram manchas vermelhas em seu peito, costas e no rosto. Na hora
de arrumar a mochila pensei em levar um livro e o escolhido foi
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.
Pela ordem de leitura, deveria ser “A Conferência dos Pássaros”
de Farid Ud-Din Attar; mas eu queria algo mais leve (na forma
de expressão, uma vez que poesia é mais difícil que prosa na hora
da compreensão). No mais, depressivo e mórbido, pensei que se eu
fosse morrer eu poderia morrer como Brás Cubas. Acho que se eu
estivesse com o livro em mãos isso seria mais fácil de acontecer.
Bom, julgue-me a vontade leitora e leitor; mas, pelo menos, você vai
concordar que é de bom gosto usar diante de uma situação difícil
um livro como amuleto.
Foram
quatro dias difíceis. Alergia, dengue, meningite bacteriana, novo
corona vírus, dores musculares mais intensas, reação à vacina
contra o novo corona vírus? Ninguém conseguia saber e ficamos
isolados em uma sala pequena, vazia e com janelas que não abriam
direito. No domingo, dia 11, fomos para Nova Lima. Eu nunca tinha
andado em uma ambulância. Meu cinto estava frouxo e não consegui
apertá-lo, mas foi tudo bem (apesar que a viagem, inesperada porque
não sabíamos quando a vaga apareceria, foi logo após o almoço que
consegui comprar na lanchonete em frente a Casa de Saúde). Mas na
tarde de segunda-feira estava todo mundo em casa. Meu pai esta melhor
agora.
Bom,
eu li “Memórias Póstumas de Brás Cubas” entre aquela sexta e
domingo. Sala pequena com uma maca e uma cadeira e duas janelas que
mal abriam; urinando no “marreco” (um vaso de metal, só saíamos
da sala para fazer o “número dois”), a sombra da meningite ou
mistério ou morte em geral, a falta de banho, a falta de sono, a
falta de um chinelo, o frio a noite, a saudade de minha mãe que
chorava de saudade sozinha que estava, saudade dos cachorros, os
parentes telefonando sem parar… Eis o tempero da leitura minha de
“Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Não tinha os meus
dicionários que eu consulto e eles fizeram falta; mas a mensagem do
livro eu captei.
E
então, o que eu tenho a dizer sobre “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”?
Antes
de mais nada, minha vaidade pede para esclarecer uma coisa a você
que me lê:
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Todo
mundo quando trata de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” cita a
sua dedicatória. E
eu quero preciso
ser diferentão,
então eu
não vou citar a
dedicatória
de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”!;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Mas
em toda a história da literatura
mundial, de Gilgamesh
a Elena Ferrante,
ninguém nunca tinha escrito uma dedicatória tão original…;
Mas
eu não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”!;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Mas
essa dedicatória
é fundamental para entender o caráter do personagem principal…;
Mas...
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”!;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou, não vou!
Não
vou, não vou, não vou!
Eu
não vou, eu não vou, não vou, nãonãonãonão…!
Mas
não vou mesmo, não vou não vou não vou,
Quando
eu vou ter outra oportunidade para ser original assim?
Não
vou, eu não vou, não vou, não vou!;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
Eu
não vou citar a dedicatória de “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”;
“AO
VERME
QUE
PRIMEIRO
ROEU AS FRIAS CARNES
DO
MEU CADÁVER
DEDICO
COMO
SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS
MEMÓRIAS
PÓSTUMAS”
Machado
de Assis, seu filho
da p****
maravilhoso!
Escrevi,
aqui em outra ocasião,
que não sou especialista a respeito da crítica sobre Machado
de Assis. Acho mais importante, agora
no início, ler os seus textos principais e
depois ler o que mulheres e homens escreveram sobre ele. Aí depois
releio os textos e o ciclo recomeça; e assim vai a vida inteira.
(Porque autores
como Machado
são companheiros para a vida inteira mesmo.)
Naturalmente que alguma coisa eu conheço da
crítica. Vídeos do YouTube, alguns textos
e obviamente as
introduções nos livros em que estou lendo.
Parece-me
que a interpretação mais unânime a
respeito de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” seja que a
história, humorística
e amarga, tem como pedra de toque o desperdício de oportunidade: em
vez de uma Madame
Curie ou de um
Júlio César,
usamos a ocasião
invulgar de um defunto autor com as suas
vantagens de ter disponíveis a eternidade,
a onisciência, a sinceridade para descobrirmos os segredos de uma
vida… ordinária, comum, mediana, medíocre, supérflua.
Mas…
Mas
talvez seja este mesmo o objetivo: o elogio
ao mediano, à massa,
romper este anonimato para descobrir um
tesouro ali. Pois se
é humano, deve ter um tesouro. Em 1881
Machado de Assis
antecipou o século XX, o século das massas anônimas
das grandes cidades. Posso facilmente
conhecer a vida, de misérias e glórias, de um Karl-Heinz
Rummenigge ou de um Mário
de Andrade; mas
como conhecer a vida de alguém como eu, alguém
próximo e quem ousaria dizer que isso não teria valor e
significado?
Eu
não discordaria desta interpretação de “Memórias Póstumas de
Brás Cubas”; mas na busca por uma síntese mais original e pessoal
de minha parte para decifrar Brás Cubas, lembrei-me de “eu
sou poeta e não aprendi a amar”. É
um verso da música “Malandragem”,
já clássica, de Cazuza
e Frejat.
Pensando mais neste caminho de interpretação, descobri que a música
toda ajuda-nos aqui. Tanto que merece ser citada na íntegra.
“Quem
sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando
o ônibus da escola, sozinha
Cansada
com minhas meias três quartos
Rezando
baixo pelos cantos
Por
ser uma menina má
Quem
sabe o príncipe virou um chato
Que
vive dando no meu saco
Quem
sabe a vida é não sonhar
Eu
só peço a Deus
Um
pouco de malandragem
Pois
sou criança
E
não conheço a verdade
Eu
sou poeta e não aprendi a amar
Eu
sou poeta e não aprendi a amar
Bobeira
é não viver a realidade
E
eu ainda tenho uma tarde inteira
Eu
ando nas ruas
Eu
troco um cheque
Mudo
uma planta de lugar
Dirijo
meu carro
Tomo
o meu pileque
E
ainda tenho tempo pra cantar
Eu
só peço a Deus
Um
pouco de malandragem
Pois
sou criança
E
não conheço a verdade
Eu
sou poeta e não aprendi a amar
Eu
sou poeta e não aprendi a amar
Eu
ando nas ruas
Eu
troco um cheque
Mudo
uma planta de lugar
Dirijo
meu carro
Tomo
o meu pileque
E
ainda tenho tempo pra cantar
Eu
só peço a Deus
Um
pouco de malandragem
Pois
sou criança
E
não conheço a verdade
Eu
sou poeta e não aprendi a amar
Eu
sou poeta e não aprendi a amar
Quem
sabe eu ainda sou uma garotinha!”
A
linha
aqui é bastante reta e curta entre nossos dois personagens. Brás
Cubas não é exclusivamente um bon
vivant de
companhia agradável para um jantar,
um homem peter pan atraente
por
causa de sua
impulsividade infantil diante de um novo projeto que lhe ocorre e
que depois ele deixa inacabado;
não, não. Há nele doses de egoísmo e crueldade que não podem ser
ignoradas. Há bastante frieza em nosso Brás Cubas. Aliás, falar em
frieza lembra-me comentar sobre o delírio que acontece no início do
livro. Mas
antes disso, vale a pena pensar em Brás Cubas como um anti-herói e
aqui a família é grande e antiga:
temos
o
Huckberry Finn de Mark
Twain
e alguns personagens de contos de fadas como a
Molly
Whuppie
ou o
Gato de Botas.
Transformar-se
em um barbeiro chinês gordinho talvez represente que a tragédia de
Brás Cubas é que ele nunca encontrou-se, nunca soube para que ele
vivia; qual era a sua vocação, chamado. A
transformação em um volume de “Summa Theológica” do Tomás
de Aquino?
Bom, como essa transformação o fez sentir-se preso, paralisado
completamente; talvez represente a educação que Brás recebeu da
família e escola: serviu para nada, não o desenvolveu e até
podemos dizer que o seu pai foi irresponsável de tão generoso e
paciente com ele. A viagem com o hipopótamo falante? Os olhos
fechados de Brás Cubas e a paisagem de neve no final me fazem
lembrar que talvez isso represente um resumo de sua vida: sem calor
humano, sem trabalho (olhos fechados e a paisagem vazia), sem obras.
E sem amigos, pois nem ele cita o nome dos amigos
que
apareceram
em seu funeral. E a mulher gigante, a Pandora-Natureza, mãe e
inimiga? Como interpretar? É irresistível
pensar que as mulheres que Brás Cubas poderiam tê-lo salvado, mas
não dá para ter certeza. Talvez elas não fossem de confiança,
mas… Enfim…
Antes
das anotações gerais que fiz, uma nota que pode ajudar a
quem se interessa pela história dos direitos da mulher.
O trecho sobre a loja da Marcela e
o motivo da loja ser pouco procurada.
Está no capítulo XXXVIII. É curtinho e discreto, mas em se
tratando de Machado:
as aparências sempre enganam.
Agora
vamos às anotações gerais.
Paralelos
com a história do Brasil: Brás Cubas é tão imaturo
quanto um certo
país
que ficava independente de
Portugal.
Convivência com pessoas tísicas. A
popularidade da poesia: sem mais nem menos, durante uma conversa, a
pessoa diz que é poeta amador e recita algum poema.
Uma
mulher casada precisa de prataria para exibir na sala de visitas.
Um jantar para comemorar uma derrota de Napoleão: sinal que nas
famílias ricas havia muito interesse pela Europa. Brás Cubas tinha
inveja dos modos formais de Damasceno e da honradez de Cotrim.
Uma
nota sobre a erudição selvagem de Machado
de Assis.
É inacreditável: Bíblia, Grécia Clássica,
literatura consagrada e autores menos conhecidos… De tudo um pouco,
é uma floresta tropical de erudição. E
o bom gosto na hora dos paralelos e citações! Soberbo!
Uma
nota dentro da nota sobre a erudição do Machado.
Eu não anotei, então posso estar sendo enganado pela minha memória.
Mas até a “Messíada” apareceu em “Memórias Póstumas de Brás
Cubas”! Explico. Eu vivo sempre com a cabeça no mundo da Lua e em
algum lugar entre alguns dos anéis de Saturno. Então quando procuro
alguma palavra no dicionário eu acabo sempre folheando demais
o dicionário e me afogo prazeirosamente
ali. Um dos meus dicionários é mágico e
estranho. Ele se chama “Dicionário Escolar das Dificuldades da
Língua
Portuguesa”. Minha edição é
de 1982, mas ele é publicado desde a década de 1960 e seu
organizador é o Cândido
Jucá (filho).
Pequeno e azul (que dicionário decide ser azul?), ali tem palavras
que os meus outros quatro dicionários não tem. Um dia, folheando o
Cândido
Jucá Filho
eu descubro o verbete “Messíada” e aprendo que
a palavra é
“nome de célebre poema do Klopstock”.
E
só. Aquilo
ficou em mim. Ainda não tive juízo de procurar pela internet o
poema. Enfim, eu juro
juro que li “Messíada” em algum lugar de “Memórias Póstumas
de Brás Cubas”!
Uma
nota dentro da nota que estava dentro da nota sobre a erudição de
Machado
de Assis.
O Tico e o Teco, os meus dois neurônios, conversaram entre si agora
e lembrei-me que tenho a obra completa
de
Machado
em
pdf (*)
e
posso fazer pesquisa por palavras em
cada arquivo.
Digitei “Messíada”
e nada. Mas quando digitei
“Klopstock”
no
“Brás Cubas”
eu
achei
isso: “… penso
que era um riso misto, como devia ter a criatura que nascesse, por
exemplo, de uma bruxa de Shakespeare com um serafim de Klopstock”.
Eis
aí. Está no capítulo XV sobre
a Marcela.
Marcela
é “prima”
da nossa Capitu de
“Dom Casmurro”, em sua ambiguidade?
Ocorreu-me
agora.
Torno-me
um Sherlock Holmes e penso que em “Messíada” com certeza tem
serafins participando. Não é possível que o nosso Machado
estava falando de outro poema do KlopKlop!
Aí ia ser erudição demais! Humilha
não, Machadão!
Fim
das notas. Agora vamos para a
citação que para mim é chave no
livro
e as observações finais.
“— Também
por que diabo não era ela azul? disse comigo.
E
esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a
invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me
reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver,
com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato,
almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e
negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um
céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha
janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem;
não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas
em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços,
pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo:
“Este é provavelmente o inventor das borboletas.” A idéia
subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo,
insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijálo
na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar
na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que
descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor
das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois
um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade
azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra
uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser
superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse
azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era
impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos
olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni
o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no
jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não,
volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido
azul.”
Como
você facilmente se perde em reflexões e desejos, Brás Cubas!
Foi
por pouco, Brás Cubas, foi por pouco. Se você tivesse percebido…
Se você… Foi por pouco, você tinha tanto tanto e
o mundo continuará doente sem
o seu remédio…
O
episódio da esposa do capitão do
navio
e do almocreve não foram suficientes para
você?
A ilusão das cicatrizes no rosto da Virgínia não era um sinal que
você tinha algum juízo? Aliás, o nome dela: Virgínia; mas ela
estava
te levando para onde como Dante…
Bobagem, bobagem,
porque lembro do episódio do muro e pergunto-me se você realmente a
amava… Ah, Brás, você amou alguém?
Realmente
amou algo?
A
história da filantropia, por exemplo, ela é tão bizarra que até
penso que Machado,
como Hermann
Hesse
em “Narciso e Goldmund”, não soube terminar o livro e por causa
disso terminou tudo rapidamente. Ou
talvez seja mais uma ironia do livro: acham, leitores, aqui no final,
que sou um inútil?, então não vou contar tudo que aprendi na minha
participação na filantropia! Ou… Enfim,
já foi dito que quem não ama caminha no escuro e você nunca soube
para onde ia e mesmo confessou isso dizendo que em sua cabeça havia
um “trapézio”!
Ainda
destaco mais um elogio, discreto como
é o estilo,
à cultura árabe islâmica; que também já apareceu em algum conto.
E a presença do Quincas Borba. Ele aparece muito muito e sua
participação é marcante no livro. Assim como Shakespeare
e Balzac,
o nosso Machado
sabe
que quando um personagem coadjuvante é muito rico, ele
merece mais espaço. Falstaff, Vautrin, Quincas
Borba.
Família
formosa essa.
Agora,
para
terminar,
uma nota que pode parecer supérflua. Machado
é universal, mas ele faz muitas referências que só facilmente um
leitor de sua época conheceria. É um aspecto “cronista” mais
forte que se espera. Se a edição do seu livro não for muito
erudita em
notas de rodapé,
leitora e leitor, a leitura fica prejudicada. E com certeza você não
quer perder nenhum grão de areia de ouro da riqueza de nosso Joaquim
Maria Machado de Assis.
*
Não
lembro se foi no site da Academia Brasileira de Letras ou no Domínio
Publico. Mas a obra completa do Machado de Assis está disponível em
pdf pela internet. Quando a peguei para mim, tive que renomear
arquivo por arquivo pois os nomes eram “rs_31_z_0_oo”. Tipo isso.
Imagine renomear um por um mais de duzentos arquivos! Deu trabalho,
mas o sangue patriótico fervia e não deixou que meu ânimo
esfriasse.
Falei
dos problemas de saúde de meu pai e agora recebo notícias
preocupantes de um tio materno. Ex atleta e homem de grande senso de
humor. Ele olhava para mim e começava a rir sem parar. Grande tio
Dizinho! Se do outro lado da tela a leitora ou leitor for de fazer
orações; eu fico agradecido.