quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Antologia do Folclore Brasileiro 2 de 25

 

Antologia do Folclore Brasileiro 2 de 25

 

 

 

Obrigado por registrar pela primeira vez em letra impressa a língua tupi, mas você é que é meio marmota senhor Andre Thevet (1502-1590/1592?)!

 

 

Costume tupinambá para receber amigos. O escolhido de outra aldeia fica na taba sentado na rede, calado. É de bom tom chorar de saudade, ou fingir. Muitos fingem, imitando as mulheres.

Senhoras e senhores, isso é simplesmente maravilhoso! Mas não seria ainda hoje, em pleno 2023, considerado por nós estranho um convidado vindo lá longe não demonstrar saudade dramaticamente durante uma longa estadia em nossa casa?

 

 

Não foi o primeiro e obviamente não será o último, e Jean de Léry (1534-1611) é mais um estrangeiro conquistado pela música brasileira. No caso, especificamente, a música tupinambá.

 

 

E durante a Dança de Guerra dos Tupinambás as canções mencionam o paraíso além das montanhas e morte, onde os guerreiros de hoje reencontrarão os guerreiros do passado numa festa que não terminará. E também mencionam dilúvio, um momento do passado remoto quando as águas cobriram toda a terra do mundo.

Uma evidência de que a ideia de paraíso, ou pelo menos de mundo bom após a morte e de que também a ideia de dilúvio nas origens do mundo é bem comum. Interessante.

 

 

Ah, e o livro de Jean de Léry sobre o Brasil é um dos mais populares, com diversas edições em várias línguas.

 

 

Aqui jaz o pecador Gabriel Soares de Souza (1540?-1592?), quem realizou o mais completo painel da vida brasileira do século XVI (1501-1600). O nome do livro é Notícias do Brasil, se puder procure a edição da Editora Martins com anotações eruditas do professor Pirajá da Silva.

 

 

Os maravilhosos tupinambás! Mais descrições de seu cotidiano!

 

 

Coisas da época, coisas dos sociólogos e antropólogos antes da sociologia e antropologia existirem, e Gabriel Soares de Souza usa os termos “macho” e “fêmea” para referir-se a... Bom, deixa pra lá. Não julgar. Na hora de descobrir o mundo a gente tem que ver o copo meio cheio. Então a gente lamenta, mas respeita e segue em frente.

 

 

Quando um índio morre, os parentes mais próximos choram dias e dias com lágrimas abundantes, mas os outros índios não demonstram muito pesar.

 

 

Os índios tupinambás gostavam muitos dos europeus que sabiam cantar e/ou tocar algum instrumento musical. Então é fácil imaginar um grupo de europeus portugueses atravessando território hostil sendo que apenas o músico do grupo sobrevivendo para contar a história... (risos)

 

 

E o padre da Companhia de Jesus Fernão Cardim (1548-1625) reparou bem como os índios tratam as suas mulheres. Normalmente as tratam super bem, cavalheiros mesmo, a não ser quando bebem. Aí brigam e depois colocam a culpa na bebida. Mas onde eu já vi isso? Hum... Mas depois ambos fazem as pazes rapidamente. Mas onde eu também já vi isso? Hum...

As caminhadas são um capítulo à parte: quando o caminho é novo e/ou quando é a saída o homem vai na frente por segurança. No caminho de volta é a mulher que vai na frente, pois se houver um encontro infeliz a mulher sai correndo mais fácil para a casa e o homem fica para lutar. Se o caminho é conhecido e/ou o clima é tranquilo eles saem com a mulher andando na frente “porque são ciosos e querem sempre ver a mulher.”

 

 

 

Livremente inspirado em Antologia do Folclore Brasileiro, 1944, organizado pelo

Professor dos professores,

o mestre dos mestres,

a mistura de Aristóteles e poesia,

a mistura do luar que perfuma o rio Potengi com o sol que vivifica o Rio Grande do Norte:

Luís da Câmara Cascudo.

(2003, Global Editora e Distribuidora Ltda, São Paulo, edição em dois volumes.)

[2 de 25].

Vidas queimadas, 1997

 

Vidas queimadas, 1997

 

Olha só o Gerson Camarotti! Uma das estrelas da rede de televisão GloboNews. Eu não sabia que ele tinha sido repórter da revista Veja. Se bem que na faculdade de jornalismo eu aprendi que é muito comum jornalistas trabalharem em vários veículos de comunicação em suas carreiras. E a Sandra Brasil, de Brasília, também colaborou na reportagem. Sandra Brasil aparece muito neste meu arquivo de material jornalístico que construí em todos estes anos. Sem dúvida uma das mais talentosas repórteres do Brasil.

Brasil

Planalto selvagem

Numa noite de tédio, cinco garotos melancólicos e

apáticos tocam fogo num índio para se divertir

O subtítulo da reportagem diz praticamente tudo sobre o Caso Índio Galdino Jesus dos Santos, mas quero destacar um trecho quase no final do texto.

Hoje, os pataxós são pouco mais de 4000 indivíduos aldeados e mais de 3000 dispersos pelas cidades e roças do sul da Bahia. De seu idioma, apenas palavras soltas persistem. Quase nada ficou da tradição: cocares que usam nas solenidades são copiados das imagens de índios que vêem em velhos livros escolares. Na cerimônia fúnebre de Galdino, uma pataxó chamada Michelle – sim: MichelleSouza Santos, 10 anos, desfilou orgulhosa seu cocar, emprestado de um índio mais velho. No adorno havia peninhas cor-de-rosa tiradas de um espanador.

(Planalto Selvagem, reportagem de Daniela Pinheiro e Gerson Camarotti publicada na revista Veja em sua edição do dia 30 de abril de 1997. Há o registro da colaboração de Cíntia Campos, da cidade de Pau Brasil, na Bahia; e de Sandra Brasil, em Brasília.).

 

E hoje, em 2023, como estamos? A Bahia aparece nos noticiários nacionais há mais de uma semana por causa da violência policial, dado que no combate ao crime muitas mortes andam acontecendo por lá. O uso de câmeras nos uniformas policiais, coisa que já acontece nos Estados Unidos, ainda é polêmico no Brasil.

Não sei como anda os índios da tribo pataxó que vivem na Bahia. O Caso Índio Galdino Jesus dos Santos, eu lembro, chocou o Brasil inteiro; se pessoas inteligentes souberam aproveitar o momento talvez hoje os pataxós estejam um pouco melhores do que outras tribos neste nosso Brasil tão injusto com os indígenas.  

Hum, vamos dar uma pesquisa aqui agora. Coisa rasa, um pouco mais que nada.

 

 

https://www.pib.socioambiental.org/pt/Povo:Patax%c3%b3

Uau! Começamos bem, começamos em um site perfeito. O povo pataxó é a água caindo do céu para beijar a terra, as pedras; e depois caminhar abraçar os rios e os mares.

- Vivem no sul da Bahia e no norte de Minas Gerais.

- A língua pataxó faz parte do tronco Macro-Jê e da família Maxakalí. Está quase totalmente perdida, mas já faz mais ou menos 30 anos que o pessoal tentar recuperá-la. Algumas vitórias foram obtidas.

- Os números disponíveis são velhos, mas a gente tem que usar o que temos. Brasil é Brasil; difícil fazer pesquisas.

No Censo Demográfico 2010, os Pataxó compõem a tabela 1.14 - pessoas indígenas, por sexo, segundo o tronco linguístico, a família linguística e a etnia ou povo - com um total de 13.588 hab, sendo 6.982 homens e 6.606 mulheres.

- O evento O Fogo de 1951. Um assalto misterioso provocou retaliação violenta contra índios pataxós e num grande incêndio na Barra Velha (Bahia). Índios que viviam em uma aldeia lá se dispersaram com consequente marca psicológica e emocional aos envolvidos. Também muitos índios foram presos. A sombra do acontecido ainda está bem viva por aquela região.

https://terravistabrasil.com.br/indios-pataxos/

Outro site interessante.

- Muitos índios pataxós participam do mercado turístico da Bahia. Redes sociais, barracas, serviços de hospedagem e etc. Ao mesmo tempo em que mantém os seus costumes ancestrais.

- As famílias são grandes. Uma mulher pode ser líder da aldeia. Se a tribo não estiver satisfeita com a liderança, é reunião para escolher outra pessoa.

https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/pelos-mundos-indigenas-pataxo/

Outro material interessante. É bom consultar o meio acadêmico brasileiro.

- Pataxó ou Pataxoop.

- Havia antigamente casamento entre primos envolvendo desafios como carregar toras de madeira. Uma bebida popular era o “caium”.

http://redeglobo.globo.com/globoecologia/noticia/2011/11/conheca-historia-dos-indios-pataxo.html

Outro e último site. Também com material interessante.

- O evento O Fogo de 1951 tem um relato ainda mais dramático.

Meninas foram estupradas e homens, espancados. Muitos precisaram se submeter à escravidão porque ficaram sem opção. Oito anos antes, o governo havia criado o Parque Monumento Nacional do Monte Pascoal e expulsou os índios que viviam nesse território. Começara aí a dispersão dos pataxós em pequenos povoados.

- São fãs da mandioca. A mandioca, o “pão do Brasil”. Também chamada pelo meu amado Luís da Câmara Cascudo de a “Rainha do Brasil”.

 

 

Agora algumas palavras sobre os cinco jovens de Brasília.

- Jovem pobre já tem que trabalhar desde cedo, às vezes até para sustentar uma família surgida precocemente. Não tem tempo para sentir apatia e melancolia e depois fazer esse tipo de m*.

- Estavam sofrendo por causa do mundo? São sensíveis demais? Tem artista que é solitário e fica no canto dele sem fazer m* com os outros.

São questionamentos previsíveis e um pouco grosseiros também, mas o importante aqui é que falta muita coisa. Um pouco mais de objetividade: evidentemente alguma coisa errada naquelas famílias de classe média alta (a propósito disso, a entrevista do pediatra Daniel Becker ao Programa Roda Viva em 2013 https://www.youtube.com/watch?v=dhduFNQUQz8)e evidentemente problemas nas escolas chamam a atenção para uma possível negligência da orientação pedagógica. Complica ainda mais quando nos aproximamos do livre arbítrio: por que fizeram isso? O que faltava a eles? Eu não tenho respostas.

 

Post scriptum 1

Eu recortei uma pequena matéria da Folha de S. Paulo sobre a condenação dos quatro rapazes (o menos de idade já tinha sido julgado antes, em separado). Se chama:

“CASO PATAXÓ Sentença foi anunciada às 4h15 de ontem; defesa anunciou que vai recorrer e índios comemoram a decisão

Jovens são condenados a 14 anos de prisão” (mantive a diagramação original, preciso lembrar que o subtítulo no caso fica do lado de cima do título.)

A defesa fez o que podia: tentou transformar em lesão corporal seguida de morte. Também se discutiu se havia ou não um cobertor envolvido. Eu destaquei um trecho, mas tive que omitir o nome por medo. Esse pessoal de direito é meio manhoso e estamos no Brasil. Liberdade de expressão é um mistério. A minha falta de importância pode ser uma vantagem ou desvantagem (lição do Millôr Fernandes sobre humoristas e prisões políticas).

Para outros, as disputas de eloquência pelo convencimento dos jurados era puro divertimento. “Isso é como um show. Eu vim para me divertir. Fiquei tão empolgado no outro dia que nem consegui dormir”, disse M. T., 18, aluno de direito do primeiro semestre.

(Jovens são condenados a 14 anos de prisão, reportagem de Silvana de Freitas e Leila Suwwa publicada pela Folha de S. Paulo em sua edição do dia 11 de setembro de 2001.)

Post scriptum 2

Falamos um pouco sobre o evento O Fogo de 1951 e hoje fico sabendo de mais um crime tenebroso contra minorias na Bahia: assassinatos de ciganos.

https://www.metropoles.com/brasil/chacina-na-bahia-6-membros-de-familia-de-ciganos-sao-mortos-a-tiros

Seis mortos. Três mulheres, sendo que uma estava grávida. Uma criança de quatro anos também morreu. Por enquanto é isso que sabemos.

Post scriptum 3

A entrevista do pediatra Daniel Becker ao programa Roda Vida da Rede Cultura. Vou ver se consigo colocar o vídeo aqui.


Olha, eu consegui!

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

4 de outubro de 2023

 


Aniversário de 12 anos da Rádio Comunitária Super Nova FM. Bar Saideira (o bar da Natália). Rio Acima, sexta-feira dia 29 de setembro de 2023. Colegas, tilápia frita, refrigerante e boa música.

 

A rádio anda meio em crise. Poucas pessoas participando como locutores. Eu podia aproveitar para fazer meu programa de uma hora virar duas horas e em vez de “só” música, ter música e entrevistas. Acho que eu seria um bom entrevistador.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Zen-Budismo 2 de 10

 

Zen-Budismo 2 de 10

 

Mal começamos a conhecer o ponto de vista do Zen-Budismo e imediatamente aprendemos aquele tipo de lição que coloca a nossa vida de cabeça para baixo, ao mesmo tempo que nos faz renascer intelectualmente e emocionalmente: o conceito budista da temporariedade.

Tudo está mudando o tempo todo. Isso é óbvio, o que não é óbvio é isso na prática: a sua dor, a sua felicidade, o próprio Buda, a autoridade dos outros, a sua idade, o que você pensava da vida, as verdades científicas... Não é óbvio que o tempo passa e que tudo está mudando.

Não é óbvio que tudo está mudando e que o tempo passa porque frequentemente você se olha no espelho e leva um susto sobre o que fez e está fazendo de sua vida. E você ri e chora quando olha para você mais novo ou você mais velho. Como é possível você levar um susto sobre o que você fez da própria vida? Você por acaso estava dormindo?

É o rio. Nós estamos no rio. É o mesmo rio do Sidarta de Herman Hesse e o mesmo rio do ensaio sobre a velhice escrito pelo meu amado Bertrand Russell. Rio ou caminho estelar do filme “Contato” (“Contact”, 1997, Jodie Foster, Robert Zemeckis, Carl Sagan, James V. Hart, Matthew McConaughey e etc.). Em última análise não deve haver nem morte ou nascimento, só este rio mesmo. Acho que as aparências e a dor e o prazer é que nos distrai. É fácil se distrair. Eu que o diga, com nome de astronauta eu vivo mesmo no mundo da Lua. Ou no quarto anel de Saturno.

E se tudo muda e se estamos no rio, não podemos nos afogar. Se a gente fica distraído ou desesperado nós não boiamos e acabamos nos afogando. Então se tudo muda nós devemos ser mais serenos diante da vida. Difícil porque em 2023 aqui no Ocidente é tanto estímulo na internet, televisão, é tanto medo nas ruas, tanto sexo insatisfatório, e tanto vazio interior e tanto desgosto por trabalho chato e salário insuficiente!

 

 

 

Livremente inspirado em “Segunda Parte Introdução às Teorias Orientais da Personalidade” e capítulo 10 “Zen-Budismo”. Do livro Teorias da Personalidade, de James Fadiman e Robert Frager (Traduções de Camila Pedral Sampaio e Sybil Safdié; com a coordenação de Odette de Godoy Pinheiro, 1979, São Paulo, Editora: Harbra Editora Harper & Row do Brasil Ltda).