Bom dia, eu me chamo Aldrin Iglesias e aqui estarão fotografias e textos realizados por mim. É que eu sou fotógrafo e também gosto de ler.
segunda-feira, 9 de outubro de 2023
domingo, 8 de outubro de 2023
8 de outubro de 2023
Esta fotografia é falsa, na maioria das vezes meu pai nunca foi para mim um sorriso espontâneo. Ao contrário, meu pai era sinceridade espinho e silêncio enquanto eu estava no escuro e me afogando. Acho que nunca consegui escutar o meu pai e nunca consegui falar com ele. Esta fotografia é verdadeira, meu pai sempre foi um menino que não sabia ser pai então para se proteger usou a sinceridade selvagem e o perfeccionismo e a coerência como escudo divino porque achava que era o correto como método. Pobre pai, queria tanto que ele fosse feliz e menos sozinho.
sábado, 7 de outubro de 2023
Antologia do Folclore Brasileiro 3 de 25
Antologia do Folclore Brasileiro 3 de 25
Mas olha a biografia do Anthony Knivet (?-?)! Caracas bicho meu
irmão!
Pirata e saqueador da turma
do Tomaz Cavendish vindo aqui para
as colônias espanholas por volta de 1591. Chegou até Santos. Nessas idas e
vindas ficou doente. Foi abandonado na baía de Guanabara. Caiu nas garras do
governador Salvador Correa de Sá,
que não era um patrão muito melhor que Cavendish.
Virou pouco mais que um escravo. Caçando, pescando, aproveitando as expedições
para escravizar indígenas para fugir na primeira oportunidade. Tentava sempre.
Tentou mil vezes e foi recapturado mil e uma. E toda vez que era recapturado,
apanhava e era humilhado. Uma vez conseguiu fugir até Angola, mas até na África
foi recapturado. Em 1602 foi a Lisboa na comitiva de Salvador Correa de Sá como intérprete. Ficou doente e se recusou a
voltar ao Brasil. Foi punido e foi morar na Inglaterra. Não se sabe como chegou
à ilha britânica, se porque foi libertado ou se conseguiu sua derradeira fuga.
Contou sua história brasileira em um livro de sucesso. Não se sabe quando e
onde morreu.
Nos buracos da face, pedras
verdes. Era o rei canibal Morubixaba.
Gritava, batia no peito e nas coxas e ia de um lado para o outro. A descrição
de Anthony Knívet é deliciosa: o rei
canibal gritava “como se houvera perdido o siso”. Lembrando que aqui “siso”
pode ser o dente ou a razão mesmo. Mas o final dessa história guaianás é feliz.
Na antiga Grécia ou na
antiga Roma, ou entre os índios do Ivo
D´Evreux (1577-1629); a vestimenta certa é um estímulo poderoso para o
soldado ir à guerra.
Como convencer as formigas
tanajuras saírem das tocas para serem capturadas e assadas e comidas? Ora, é
fácil. Você canta.
“Vinde, minha amiga,
Vinde ver a mulher formosa,
Elas vos dará avelãs.”
Esta anuncia a chuva, aquela
também anuncia a chuva e esta outra também anuncia... a chuva. As três
constelações que os tupinambás do Frei
Claude d´Abbeville (?-1616) conhecem com nomes próprios. A maioria das
estrelas eles chamam genericamente de jaceí-tatá.
O quê? Querem saber o nome
indígena das três constelações que anunciam as chuvas? Não digo. Apenas destaco
que é evidência da importância das chuvas para aqueles índios.
- Mas isso é óbvio, não?
Não, branquelo da cidade
grande que nem sabe o que é seca de verdade; não é.
(Correção-2023: “branquelo
da cidade grande que nem sabe o que é seca de verdade ainda”.)
Ainda a água, ainda a chuva.
Muitas vezes acontece, depois de uma grande tempestade, a lua nascer vermelha
nos céus. É por causa das feridas causadas pela estrela vermelha-cachorro januare que sempre persegue a Lua. Mas
principalmente significa a proximidade da morte. Os homens ficam felizes porque
vão reencontrar os avós guerreiros. Mas as mulheres tem medo da morte, então
choram alto protestando.
Os tupinambás conheciam bem
o céu estrelado. Planetas e fases da lua. Marés e o sol e as estações. Claro
que com outros nomes e com os seus mitos, como explicação. Claro, claro.
Ao mesmo tempo que quero
destacar a estrela que se chama “menino que bebe manipol” (conomimanipoere-uare), quero observar que devemos reforçar o respeito pelo
conhecimento pré-científico de astronomia por parte dos tupinambás.
Um trecho preconceituoso
senhores Frei Claude d´Abbeville e Des Vaux? Hum... Mais respeito à
autoridade dos pajés.
Era jovem e mesmo assim Jorge Marcgrave (1610-1644) foi o
espírito mais completo que a ciência teve no século XVII (1601-1700).
Etnógrafo, astrônomo, antropólogo, meteorologista e etc., como era comum numa
época que a ciência era mais aventureira e ainda não estava dividida entre
tantas disciplinas.
Jorge
Marcgrave era brilhante, sem dúvida, mas a religiosidade indígena
o confundiu quando ele esteve no Brasil. Tem rituais, mas não religião? Não
conhecem Deus, mas falam em Tupã? Fala que os índios acreditam em céu e
inferno, mas depois que não acreditam em alguma ideia de céu ou inverno. Não há
veneração e cerimônias, mas fala do tronco de madeira enfeitado para os
espíritos e as cerimônias dos sacerdotes.
A incoerência eu debito no
fato que, de fato, era outro mundo, outra língua, praticamente outro universo
que Marcgrave estava diante de si.
Ele usava os “óculos” europeus de que dispunha. Via e não via o que via. Era
mesmo difícil para ele.
Livremente inspirado em Antologia
do Folclore Brasileiro, 1944, organizado pelo
Professor dos professores,
o mestre dos mestres,
a mistura de Aristóteles
e poesia,
a mistura do luar que
perfuma o rio Potengi com o sol que vivifica o Rio Grande do Norte:
Luís da Câmara Cascudo.
(2003, Global Editora e
Distribuidora Ltda, São Paulo, edição em dois volumes.)
[3 de
25].
sexta-feira, 6 de outubro de 2023
Zen-budismo 3 de 10
Zen-budismo 3 de 10
Me perdi fácil fácil na
filosofia do trem, mas também porque é fácil e sedutor mesmo. Ocorre que me
esqueci de escrever algo sociológico e histórico.
A árvore budista tem dois
galhos que se destacaram ao longo da história. Um galho apareceu na Tailândia,
Mianmar, Malásia; no sudoeste asiático. Esta tradição se chama Hunayana ou
Theravada. Ela é legal, mas não nos interessa por enquanto. A que nos interessa
nasceu nos grandes países asiáticos, como a China, Coréia e Japão. É o galho
Mahayana. Esta tradição sim, nos interessa agora. Temos até o nome do seu
criador, o monge budista hindu Bodhidarma.
Pausa.
Um monge budista... hindu.
Decerto que a verdade não
conhece esta frescura humana chamada de fronteira, mas... (risos). Bom, eu pessoalmente
adorei. Adoro as histórias budistas e sou apaixonado também pela Rede de Indra, ensinamento do hinduísmo.
Sou brasileiro, afinal. Antropologia e ecumenismo sempre, bebê!
Agora vamos sair da sala da
sociologia e história e vamos voltar para as paisagens filosóficas.
Depois da temporalidade,
chegamos a outro ensinamento budista barra pesada. Violenta mesmo. Derrubar a
barraca e mandar o balde viajar.
Você é este seu corte
antiquado de cabelo? Não. Você é esta sobrancelha? Não. Você é o seu bumbum?
Não. Você é o seu belo umbigo? Não. Você é este sapato maaaaaaravilhoso? Não.
Você é a história traumática da sua infância? Não. Você é esta tatuagem de I
Ching nas costas? Não. Você é seu cérebro? Não. Você é seu olho? Não. Você é
dente siso? Não. Você é os seus sonhos? Não. Você é sua unha? Não? Você é a sua
cueca? Não. Você é o seu curso de computador do SENAC? Não. Você é o seu
coração cativo? Não.
Então o que é você? Um monte
de pedaços que estão apodrecendo cada vez mais a cada instante? Estes pedaços mais alguma coisa misteriosa? É o som de
seu nome? A gente sabe o que o senso comum define como indivíduo. Quando a
gente se apaixona, quando o nosso dedo do pé encontra o pé da poltrona, quando
desejamos aprender a dirigir, quando recebemos a notícia que o Maxwell vai ter
mesmo que fazer uma cirurgia perigosa, quando ficamos com vergonha por ter
feito algo feio... Mas o senso comum está errado quando acredita na existência
do indivíduo.
Uau! Trem poderoso. Soco no
estômago para tirar todo o nosso fôlego. A consequência mais imediata é o
desprendimento. Na pobreza e na riqueza, na saúde e na doença, a gente sabe que
não passa de uma gota no oceano. Imagem popular que agora você sabe ser
verdadeira.
Ensinamento budista
poderoso. Tem primos no Ocidente. O epicurismo e sua opinião a respeito de
sermos átomos, afinal. Os pedaços de madeira velha do Navio de Teseu. E mais modernamente, o filósofo escocês David Hume e seu conceito de “eu”. Ou
melhor, a sua falta de conceito de “eu”. Mas família é trem complicado, a gente
sabe. Tem parte da família que vai discordar e essa parte não é fraca. Immanuel Kant e o livre-arbítrio e o
dever moral. E o próprio cristianismo e o seu livre-arbítrio. Egocêntrico,
mimado, preguiçoso, infantil e medroso; essa questão se existe um eu me é
particularmente sensível.
Livremente inspirado em “Segunda
Parte Introdução às Teorias Orientais da Personalidade” e capítulo 10 “Zen-Budismo”. Do livro Teorias da Personalidade, de James
Fadiman e Robert Frager (Traduções de Camila Pedral Sampaio e
Sybil Safdié; com a coordenação de Odette de Godoy Pinheiro,
1979, São Paulo, Editora: Harbra Editora Harper & Row do Brasil Ltda).
