domingo, 21 de fevereiro de 2021

Aniversário da Maria Bola

 Hoje de manhã testemunhei um milagre e este é autêntico. Eu vi uma Maria Bola trocar de pele, ou renascer ou simplesmente fazer aniversário. Maria Bola é uma aranha também conhecida como Nephilis cruentata; segundo a WikiPédia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Nephilingis_cruentata) ela é de origem Africana em suas regiões mais quentes. Os registros mais antigos de sua presença na América do Sul datam do século XIX.

As Maria Bola são especiais para mim. Primeiro porque são aranhas e eu acho as aranhas bonitas e segundo porque ficar parado que nem bobo olhando para cima para elas nas teias é uma das principais composições de minha memória da infância. Por alguma poesia desagradável, elas sumiram aqui de casa justamente quando eu deixei de ser criança e só retornaram há uns dois anos. Começou com uma fêmea grande, linda, perfeita; ela teve filhotes e depois morreu. Passaram alguns meses e nada. Mais algum tempo e também nada. De repente um monte de Maria Bolas estavam aqui, me olhando de cima. Que lindo!

Neste texto de 2016 da Fapesp (Fundação de Amparo À Pesquisa do Estado de São Paulo], - "Antes da Primeira Mordida" [ https://revistapesquisa.fapesp.br/antes-da-primeira-mordida/ ], do Rodrigo de Oliveira Andrade; podemos ler sobre as pesquisas da Adriana Lopes e sua equipe (Instituto Butantan) a respeito da complexa digestão desta aranha (quantas enzimas astacinas, héin?) e as pesquisas do Hilton Japyassú (Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia) a respeito da memória dessas aranhas e de como elas aprendem a construir teias de acordo com o tamanho das presas que costumam ser mais frequentes aparecer para elas e também de acordo com a fome (naturalmente). É um texto científico fácil de ler, meu único comentário negativo é o Rodrigo ter referido às Nephilis cruentata pelo nome de "aranhas gigantes"; um nome bem sem graça eu acho.

Meu Will, Oh Meu Will!


 

Lembro bem de como fiquei decepcionado quando vi uma formação rara de flores e galhos se repetir muitas vezes aqui no terreno de casa. O mesmo acontece com as nuvens. É raro ou é você que não costuma olhar para o céu? É difícil o meio termo: ou tudo é divino e maravilhoso ou nada o é. Rio Acima, 2009.




NOTAS SOBRE UMA PRIMEIRA LEITURA DE "HERÓIS DA HISTÓRIA", DE WILL DURANT. (Tradução de LAURA ALVES e AURÉLIO BARROSO REBELLO, L&PM Editores, 2012)


Nunca vou falar demais sobre o meu Amor pela prosa linda de Will Durant. Algum dia terei coragem e dinheiro para fazer uma viagem sacra aos Estados Unidos da América para conhecer a Fundação Will Durant?


Eu achava que esse "Heróis da História" era "apenas" uma forma condensada do monumental "História da Civilização", que Will escreveu em colaboração com a sua Ariel amada. E, coisa de amante exigente, isso tornava o livro para mim desprezível. O fato do formato do livro ser pequeno, possuir uma capa sem graça e o fato de que "História da Civilização" estar fora de catálogo há décadas; contribuíram para esta minha impressão. Era o que eu pensava quando via este livro nas livrarias. Mas... Mas quando eu finalmente depois de anos, - de anos! -, peguei este livro em minhas mãos e li os textos introdutórios... Percebi que era, na verdade, um trabalho inédito, um manuscrito que estava perdido. Uma espécie de “testamento”, pois foi o último trabalho importante deste historiador estadunidense.


Esqueci de desmaiar de emoção porque fiquei cheirando o livro, e escolhendo o exemplar mais novo disponível na estante giratória da editora (pois eu compro livro igual como a gente sai para comprar maçãs ou peixes em uma feira no começo do mês). A seguir algumas notas minhas feitas após uma primeira leitura do livro.


Depois da galinha, ovelha, porco, cachorro ao redor da caverna ou cabana, o homem é outro animal útil que ainda vai ser domesticado pela mulher. Essa lição já tinha sido ensinada por Will Durant em seu "História da Filosofia", de 1926. Ou seja, quase cinquenta anos antes do “Heróis da História”! Will também repete outras coisas de seus livros anteriores e reconhecê-las foi um prazer especial para mim. Longe de achar que um dos autores que eu mais amo diminuiu-se por repetir-se, eu passei a gostar mais dele. Hã? Não estou pedindo para vocês entenderem mesmo. É Amor e Amor não pede ou implora migalhas ou ouro, ele existe e o resto do universo que se vire quanto a isso.


Podemos começar a conhecer o mundo infinito da poesia chinesa procurando poemas do Li Po.


Teatro da Grécia Antiga é todo glorioso, mas ao procurar as obras mais valiosas não esqueça você da trilogia de Ésquilo "Oresteia".

(Em Os Grandes Pensadores [1939], o Will citava como o maior nome do teatro grego Eurípedes; que por sinal, ao lado do nosso Garrincha (“a alegria do povo”) e do líder huno Átila (“a praga de Deus”); tinha o apelido mais legal de todos: “Eurípedes, o humano”.)

Então o resumo é esse: em caso de dúvida, compre Ésquilo e também o Eurípedes. Como é bom ser diplomata, se sobrar um pouco do “vil metal”, lembrar do Sófocles e do Aristófanes. Vai que esses dois últimos resolvam transformar-se em fantasmas nervosos?


Praxíteles: procurar fotos das esculturas dele na internet.


Nunca tinha lido sobre a Roma antiga, apenas sabia o básico mais pobre. Ou para ser sincero, nem nem isso! Bom... Uaaau! E mais "uaaaaaau!"!


- Mas como Will Durant escreve? Talvez você esteja curioso. Acho que eu não preciso dizer que eu espero essa curiosidade. Um parágrafo será uma boa amostra e além de também aqui suprir alguma necessidade de polêmica; normal quando se estuda história geral.

"Em 65 d. C., os judeus se revoltaram contra Roma; os judeus cristãos, indiferentes à política, retiraram-se para Pela, na margem oriental do Jordão. Os judeus acusaram os cristãos de covardia e traição, e os cristãos saudaram a destruição do Templo, em 70 d. C., como o cumprimento de uma das profecias de Jesus. O ódio mútuo inflamou as duas fés e propiciou a escrita de parte da literatura mais piedosa desses dois grupos."


A literatura medieval é muito rica. Entre as canções que resistiram aos séculos e séculos, podemos lembrar da alemã "Unter den Linden"; composta pelo Walther von Der Vogelweide.


Há muitas maneiras de tentar decifrar este mistério infinito que é ser um humano. Um dos caminhos mais inteligentes é estudar a história da Igreja Católica. Lembrar, portanto, de procurar nas livrarias uma “História Geral da Igreja Católica” que seja mais imparcial possível e ler e estudar atenciosamente.


E se estivessem escutado o “selvagem eremita” Bartolommeo Carosi, o Brandano naquela Quinta-Feira Santa?


O anabatista Baltasar Hubmaier escrevendo o primeiro documento defendendo a tolerância religiosa de que temos o registro. Uau!


O livro “Heróis da História” termina na Inglaterra de Elisabeth I e de Francis Bacon. A morte não teve piedade nem mesmo do meu amável e gentil Will Durant! O projeto de escrever um texto para programas de televisão (a origem do manuscrito que virou o livro) não pode prosseguir. Uma pena. Sentindo isso eu li o final do livro de maneira melancólica. Não obstante, aprendi que Elisabeth I foi a melhor governante que os ingleses já tiveram e que Bacon amou a ciência como poucos amaram antes e depois dele.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

O Espelho, 1882

 

O universo desta aranha Salticidae pode ser tão infinito e glorioso quanto o nosso. Rio Acima, 2009.




O Espelho” (Papéis Avulsos, 1882)


Nem esperei o Pai Machado de Assis dá-me a quarta frase do conto e eu já estava apaixonado pelo texto. Amigos em uma noite, onde a luz da sala misturava-se à luz da Lua, decifrando os maiores mistérios da existência. Eu já contei a vocês que acho que eu comecei a gostar de filosofia ainda bem criança por causa das conversas de adulto que eu ouvia durante os churrascos de família?


Se discordarem de mim é para a gente apagar o charuto e ir dormir. Adorei essa. Anotei. Bom para o Brasil de 2021, sempre violento e com o barulho da falta de diálogo.

Se discordarem de mim, é mais um pedaço de bolo de fubá e um gole de café e “tchau!”.


A curiosidade está na base da civilização. Will Durant acrescenta o Pai Machado de Assis ao lembrar do dinheiro.


Não é muito, mas um pouco do cotidiano de uma casa na época da escravidão podemos conhecer por meio deste conto.


Voltarete” e “piparote”, duas palavras de origem espanhola da época do Pai Machado de Assis.


Eu realmente amei este conto!

Todo o humano tem duas almas.

Uma alma que olha de dentro para fora e outra alma que olha de fora para dentro.

A nossa alma que olha de fora para dentro pode ser do tipo mutante; ser o poder e depois ser um cargo seguro na Secretaria de Transporte onde a gente se acomoda ou mesmo uma linda coleção de sapatos ingleses. Raramente esta alma é do tipo que seja apenas uma coisa, a não ser que você seja um Júlio César e aí o poder e apenas o poder seja esta sua segunda alma, entende? … (Aqui eu lembro de mais um trecho do meu Bryan. Que a Editora Martins Fontes perdoe-me mais uma vez!

Quando li as palavras “a solução do enigma do mundo somente é possível através da ligação correta entre a experiência exterior e a interior”, foi como se alguém tivesse acendido uma luz dentro da minha cabeça.”

(CONFISSÕES DE UM FILÓSOFO, de Bryan Magee; tradução de Waldéa Barcellos, Editora Martins Fontes, 2001).

Machado e Schopenhauer; não é raro que duas pessoas cheguem à mesma conclusão.

O humano é metafisicamente uma laranja. Uma laranja… Eu sou uma laranja. E porquê não? Gostei disso. Eu sou uma laranja! Lembrei-me da professora de gramática e literatura do colégio que sempre sempre elogiava o Dicionário de Símbolos. Para procurar, se houver, o verbete “laranja”. Já encontrei este livro em livrarias, mas ainda não o comprei. Se não me falha a memória o livro é de autores franceses.


E por falar em franceses tem o Jean-Paul Sartre, pois o nosso Pai Machado de Assis antecipou “A Náusea”. (Não conheço esta obra do existencialista francês; minha referência aqui é aquele vídeo do site da internet YouTube, onde o professor de filosofia Clóvis de Barros Filho conta aquela história do emprego perdido e do fichário de alunos deixados na padaria.). O garçom de “A Náusea”; a psicóloga presunçosa do Recursos Humanos; e o Espelho. Ora, ora, leitoras e leitores. O que a gente é? Cumprimos bem o papel que a sociedade espera de gente? Sem sentirmos escravos e sem sentirmos enjoo e sem confundir um espelho que não mente? Bom, não sei qual foi a resposta aí do outro lado do monitor do computador ou do celular; o que eu sei é que, pelo menos, os escravos do conto puderam fugir. Mas a gente não é escravo, não é?


Gostei muito do conto, mas não sei se concordo com o título dele.


Óps, mencionei que gostei muito do conto e não vou fazer uma citação? É gostoso fazer uma citação, a gente se sente na pele de quem escreve o livro! Já imaginaram como é estar na pele do Pai Machado de Assis? O sangue brasileiro nosso pega fogo.

Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este famoso estribilho: Never, for ever! — For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: — Never, for ever!— For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

Sim, parece que tinha um pouco de medo.

Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria.”

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Um Lindo Dia na Vizinhança, 2019

 

Meu primo materno João gostou desta foto. Destaco isso porque não é sempre que o marmota aqui agrada a família. Rio Acima, 2009. A formiga aventureira subiu e subiu e depois voltou. Nem todo mundo sabe quando ir adiante e quando parar e retornar o caminho. Você sabe?




Não contei porque isso seria muito vulgar diante de um evento tão especial, mas assisti ao filme bem mais do que duas vezes; além de assistir a longos trechos quando durante as inúmeras reprises dos canais da Família HBO: “Um Lindo Dia na Vizinhança” (A Beautiful Day in the Neighborhood, 2019, Marielle Heller, Tom Junod, Noah Harpster, Micah Fitzerman-Blue, Chris Cooper e etc.).


Você fica comovido o filme todo, mas há dois momentos em que você derrete-se em lágrimas na chuva do final do primeiro filme Blade Runner e no rio Amazonas e também no oceano Atlântico. Quando o carteiro aparece pela segunda vez e a gente percebe que não é o McFeely e sim do pai do Lloyd; e ele nos diz: “é uma entrega rápida”. E depois no restaurante chinês, quando o Rogers faz uma coisa com o seu olhar que-eu-não-vou-dizer-o-que-é-porque-você-que-me-lê-vai-também-ver-o-filme-da-Marielle-Heller e descobrir.


Por quê eu assisti a este filme tanto assim e o compreendi tão plenamente como se eu mesmo o tivesse feito, do roteiro à digitação dos créditos finais? Tem alguma coisa haver com o filme brasileiro “Lavoura Arcaica” (2001, Simone Spoladore, Luís Fernando Carvalho, Raduan Nassar e etc.) e o meu pai? Por quê eu me considero defeituoso e equivocado na linha de produção do mundo e queria algo bonzinho e perfeitinho? Por quê eu queria chorar? Por quê eu queria sair daqui onde estou e pular na televisão para morar naquela vizinhança?


O filme de Marielle Heller é realmente belo, o que significa que é verdadeiro e também redentor. Porque é isto que a beleza é e faz. Eu me sinto inspirado agora. Obrigado, Marielle e Freddie.