“ “O
indivíduo deixa a si mesmo em casa quando vai a Bayreuth, renuncia
ao direito de ter a própria escolha, a própria língua, ao direito
ao seu gosto, mesmo a sua coragem, como a temos e exercitamos entre
as nossas quatro paredes, em oposição a Deus e o mundo. Ninguém
leva consigo ao teatro os mais finos sentidos da sua arte, menos
ainda o artista que trabalha para o teatro – falta a solidão, o
que é perfeito não suporta testemunhas... No teatro nos tornamos
povo, horda, mulher, fariseu, gado eleitor, patrono, idiota –
wagneriano: mesmo a consciência mais pessoal sucumbe à magia
niveladora do grande número, o próximo governa, tornamo-nos
próximo...”. ”
“Solitário
então, e gravemente desconfiado de mim mesmo, tomei, não sem ira,
partido contra mim e a favor de tudo o que me fazia mal e era duro:
assim achei novamente o caminho para esse valente pessimismo que é
oposto de toda mendacidade idealista, e também, como quer me
parecer, o caminho para mim – para minha tarefa... Esse oculto e
soberano Algo, para o qual durante muito tempo não temos nome, até
ele se revelar enfim como nossa tarefa – esse tirano em nós toma
uma represaria terrível contra toda tentativa que fazemos de nos
esquivar ou fugir, contra toda resignação prematura, toda
equiparação aos que não são nossos iguais, toda atividade, ainda
que respeitável, que nos desvie do principal – e mesmo toda
virtude que nos proteja contra a dureza da responsabilidade mais
nossa.”
“Outrora
ordenava às nuvens
que se afastassem de meus montes –
outrora
dizia: “Mais luz, ó seres escuros!”.
Agora as chamo para
que venham:
fazei escuro ao meu redor com vossas tetas!
-
quero vos ordenhar,
Vacas das alturas!
Sobre a terra
espalharei
sabedoria quente como leite, doce orvalho de amor...”
NIETZSCHE
CONTRA WAGNER – Friedrich Nietzsche.
(Tradução
de Paulo César de Souza)