quarta-feira, 13 de julho de 2022

O Poder do Mito, Campbell, Bill e Betty

 

Já se disse que arte é fazer as coisas bem feitas.”


Já se disse, e bem, que a mitologia é a penúltima verdade – penúltima porque a última não pode ser transporta em palavras.”


Ah, é que o sonho é uma experiência pessoal daquele profundo, escuro fundamento que dá suporte às nossas vidas conscientes, e o mito é o sonho da sociedade. O mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado. Se o seu mito privado, seu sonho, coincide com o da sociedade, você está em bom acordo com seu grupo. Se não, a aventura o aguarda na densa floresta à sua frente.”

O PODER DO MITO – Joseph Campbell & Bill Moyers & Betty Sue Flowers.

(Tradução de Carlos Felipe Moisés)

O Andarilho e sua Sombra, Nietzsche

 

As diferentes culturas são diferentes climas espirituais, cada um dos quais é particularmente danoso ou salutar para esse ou aquele organismo. A história em seu conjunto, enquanto saber sobre as diferentes culturas é a farmacologia, mas não a ciência médica mesma. É necessário antes o médico, que se utilize dessa farmacologia para enviar cada qual ao clima que lhe for proveitoso – temporariamente ou para sempre.”


317.
Opiniões e peixes. Possuímos nossas opiniões como possuímos peixes – na medida em que somos proprietários de um viveiro. Temos de sair para pescar e ter sorte – então temos nossos peixes, nossas opiniões. Falo de opiniões vivas, de peixes vivos. Outros se satisfazem em possuir uma coleção de fósseis – “convicções”, em sua cabeça.”


Aquilo que vocês com decrépita miopia, temem como sendo a superpopulação da Terra, é justamente o que proporciona ao mais esperançoso a sua grande tarefa: um dia, a humanidade deve se tornar uma árvore que cubra a Terra inteira, com muitos bilhões de brotos que devem conjuntamente se tornar frutos, e a Terra deve ser preparada para nutrir essa árvore. Fazer com que o atual esboço, ainda pequeno, aumente em seiva e força; com que circule em inúmeros canais a seiva para a alimentação do todo – dessas tarefas, e de outras assim, é que se há de extrair o critério segundo o qual um homem de hoje é útil ou inútil. A tarefa é indizivelmente grande e ousada: todos queremos contribuir para que a árvore não apodreça antes do tempo!”


O ANDARILHO E SUA SOMBRA – Friedrich Nietzsche.

(Tradução de Paulo César de Souza)

Nietzsche contra Wagner, Nietzsche

 

“ “O indivíduo deixa a si mesmo em casa quando vai a Bayreuth, renuncia ao direito de ter a própria escolha, a própria língua, ao direito ao seu gosto, mesmo a sua coragem, como a temos e exercitamos entre as nossas quatro paredes, em oposição a Deus e o mundo. Ninguém leva consigo ao teatro os mais finos sentidos da sua arte, menos ainda o artista que trabalha para o teatro – falta a solidão, o que é perfeito não suporta testemunhas... No teatro nos tornamos povo, horda, mulher, fariseu, gado eleitor, patrono, idiota – wagneriano: mesmo a consciência mais pessoal sucumbe à magia niveladora do grande número, o próximo governa, tornamo-nos próximo...”. ”


Solitário então, e gravemente desconfiado de mim mesmo, tomei, não sem ira, partido contra mim e a favor de tudo o que me fazia mal e era duro: assim achei novamente o caminho para esse valente pessimismo que é oposto de toda mendacidade idealista, e também, como quer me parecer, o caminho para mim – para minha tarefa... Esse oculto e soberano Algo, para o qual durante muito tempo não temos nome, até ele se revelar enfim como nossa tarefa – esse tirano em nós toma uma represaria terrível contra toda tentativa que fazemos de nos esquivar ou fugir, contra toda resignação prematura, toda equiparação aos que não são nossos iguais, toda atividade, ainda que respeitável, que nos desvie do principal – e mesmo toda virtude que nos proteja contra a dureza da responsabilidade mais nossa.”


Outrora ordenava às nuvens
que se afastassem de meus montes –
outrora dizia: “Mais luz, ó seres escuros!”.
Agora as chamo para que venham:
fazei escuro ao meu redor com vossas tetas!
- quero vos ordenhar,
Vacas das alturas!
Sobre a terra espalharei
sabedoria quente como leite, doce orvalho de amor...”


NIETZSCHE CONTRA WAGNER – Friedrich Nietzsche.

(Tradução de Paulo César de Souza)

O Caso Wagner, Nietzsche

 

Que o teatro não se torne o senhor das artes.
Que o ator não se torne sedutor dos autênticos.
Que a música não se torne uma arte da mentira.”


Já se percebeu que a música faz livre o espírito? Que dá asas ao pensamento? Que alguém se torna mais filósofo, quanto mais se torna músico? O céu cinzento da abstração atravessado por coriscos; a luz, forte o bastante para se verem as filigranas; os grandes problemas se dispondo à apreensão; o mundo abarcado com a vista, como de um monte. – Acabo de definir o pathos filosófico. – E de súbito caem-me respostas no colo, uma pequena chuva de gelo e sapiência, de problemas resolvidos... Onde estou? – Bizet me faz fecundo. Tudo o que é bom me faz fecundo. Não tenho outra gratidão, nem tenho outra prova para aquilo que é bom.”


Eles estão certos, esses jovens alemães, tal como agora são: como poderiam eles sentir falta do que nós, outros, nós, alciônicos, sentimos falta em Wagner – la gaya scienza, os pés ligeiros; engenho, fogo, graça; a grande lógica; a dança das estrelas; a espiritualidade petulante; os tremores de luz do Sul; o mar liso – perfeição...”


O CASO WAGNER – Friedrich Nietzsche.

(Tradução de Paulo César de Souza)