domingo, 7 de agosto de 2022

Filosofia da Vida, Will

 

... mas a flecha está, em cada momento, num só lugar; e, portanto, esta em repouso em cada momento do seu voo. “Tudo pode ser provado com o raciocínio”, conclue Anatole France. “Zenão de Eléia demonstrou que uma flecha em movimento está sempre imóvel. Pode-se provar o contrário, embora, para sermos verdadeiros, tenhamos que confessar que é mais difícil. ””



Ninguém ainda mediu a potencialidade do homem para o bem.”



Foi Platão, o filósofo do amor, quem disse: “Aquele que não ama caminha no escuro”.”



Maria Luísa da Áustria gabava-se de obter de Napoleão tudo quanto queria, se chorava duas vezes.”



Um jornal de Baltimore informa-nos que recentemente um homem foi levado em bem crítica situação a um hospital daquela cidade, em consequência do assalto de três raparigas, numa floresta perto de Hurlock. Ia o homem caminhando a pé, quando as raparigas, de auto, lhe ofereceram um lugar. Aceitou. Depois de caminhados vários quilômetros, diz a vítima, elas detiveram o carro num sítio ermo. Durante o “petting party” que se seguiu, uma das moças enfureceu-se com sua falta de ardor. Um pega se seguiu. Enquanto duas o seguravam, a terceira o espetava cruelmente com um alfinete de chapéu. Por fim as raparigas fugiram. Deixando-o por terra naquele triste estado. É lá possível depois disso termos dúvida sobre a emancipação da mulher?” ((*))


Havemos de que encarar perigos e procurar a responsabilidade; poderemos ser batidos, aniquilados – mas a data da morte duma criatura que tem de morrer é detalhe cronológico sem importância para a filosofia.”



O economista belga Quetelet mostrou a notável regularidade estatística de ações aparentemente voluntárias, como o casamento, ou acidentais, como a colocação no correio de cartas sem endereço. Destes simples dados infiro que embora a conduta humana nos pareça livre quando vista em detalhes, revela-se quando vista em massa, determinada por forças alheias à vontade do indivíduo.”



Nem podemos definir o progresso com relação à felicidade, porque os idiotas são mais felizes que os gênios.”



Espantava-se Kant de que no mundo houvesse tanta bondade e tão pouca justiça; a razão, talvez, é que na bondade temos uma simpatia espontânea, e a justiça depende de raciocínio e julgamento.”



A ordem é um meio de conseguir liberdade, não o fim da liberdade; a liberdade não tem preço, já que é o instrumento vital da evolução. “No fim”, diz Goethe, “só a personalidade conta”.”



As minorias podem organizar-se; as maiorias, não – eis tudo. O governo ou é monárquico ou oligárquico, disso não há como escapar.”



Foi o que sucedeu a Pedro, o Grande, quando quis numa só geração ocidentalizar a Rússia – e o que sucedeu a Lenine quando quis faze-la socialista. O passado reage.”



Gabriel Tarde (1843-1904) mostra como os deuses mais despóticos eram os mais reverenciados – o que também acontece com os maridos.”



Tão real era a sociedade dos mortos, que em muitos lugares os chefes lhes enviavam mensagens pelo único meio de comunicação possível: um servo a quem cortavam a cabeça. Se era esquecido alguma coisa, lá ia outro escravo sem cabeça com o “post scriptum”.”



Como disse Renan, os gregos deram ao espírito humano a liberdade, mas os judeus trouxeram a fraternidade. A Grécia teve cultura, mas não revelou coração; até seus filósofos defendiam a escravidão. Se os gregos produziram arte e ciência, dos judeus saiu a ideia de justiça social e dos direitos do homem.”



“ “O cristianismo”, diz Renan, foi a “obra-prima do judaísmo.” Ou, na frase de Heine – uma heresia judaica.”



Também Lao-Tsé mandou que amássemos nossos inimigos. Mas Confúcio disse: “Com que, então, recompensará a bondade? Paga o bem com o bem, e o mal com a justiça.””



Converteram o imperador Constantino, dele obtiveram aquela famosa “Doação”, aceitaram legados opulentos, e por fim a Igreja dos pobres pescadores da Judéia se transformou na mais rica e poderosa organização que o mundo ainda viu.”



A humanidade não quer ciência – tem um pavor mortal à ciência, porque a ciência só ensina que a vida devora a vida e que toda vida morre. As massas jamais aceitarão a ciência enquanto a ciência não lhes der o paraíso na terra.”



Todas as verdades são velhas e só os poetas e os loucos podem ser originais.”



Duas coisas refutam Deus: a vida e a morte, nenhum médico ou general pode crer nele.”



Dean Swift, que devia conhecer muito bem a matéria, disse que temos religião bastante para nos fazer odiar, mas muito pouco para nos fazer amar uns aos outros.”



E ainda veremos a ciência e a religião unidas na mesma alma, como se mostraram em Leonardo, Spinoza e Goethe.”



Se conhecêssemos melhor a história nela encontraríamos elementos para grandes consolações. A perspectiva é tudo.”



Além disso só tem o direito de lamentar a morte quem ama a vida; para um pessimista a morte há de ser a maior das bênçãos.”


FILOSOFIA DA VIDA - Will Durant.

Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1948. Tradução de Monteiro Lobato.

* A edição brasileira é de 1948, mas o livro original (cujo o título é "The Mansions of Philoshophy") é de 1929. O que torna este trecho ainda mais interessante.

Memória do Cotidiano v. 8, Lúcio

 

Teatro sem igual

O Norte Teatro Escola encenou, na Sede Social do Pará Clube, que ficava na avenida Nazaré (entre Dr. Moraes e Benjamin Constant) duas peças de Machado de Assis, ambas dirigidas por Maria Sílvia Nunes, uma das fundadoras do grupo (juntamente com o marido, Benedito Nunes, e a irmã, Angelita, ambos já falecidos).

O elenco de Quase Ministro contava com Daniel Carvalho, Carlos Miranda, Fernando Pena, Antônio Munhoz, Wilson Pena, Osvaldo Rodrigues, Lóris Pereira e Cândido Lemos (substituído por Paraguassú Eleres). Os atores de Lição de Botânica eram Maria Brígido, Sílvia Mara, Anita (Aita) Altmann e Daniel Carvalho. Nunca houve grupo teatral como o Norte Escola.”



Legado à moda antiga

O inventário de José Dias da Costa Paes, empresário e líder das chamadas “classes conservadoras” do Pará, aberto nesse ano, revela a mentalidade das elites da época. Português, nascido em Alenquer do Bispo, freguesia de Lisboa, e sem filhos, ele deixou uma casa e um prédio na Serzedelo Correa à sobrinha preferida, Julieta Spencer Simões, que também teve parte no Edifício J. Dias Paes, na avenida Presidente Vargas, juntamente com quatro irmãos do empresário.

Às cinco deixou mais de 300 mil cruzeiros “per capita”, o mesmo valor legado à Beneficente Portuguesa. A Ordem Terceira e a Santa Casa de Misericórdia foram contempladas com 200 mil cruzeiros. De Cr$ 100 mil foi a cota que coube ao Lar de Maria, irmãs Vicentinas e Berçário Júlia Paes. O que sobrasse da partilha ficaria para a sobrinha querida.

Há inventários desse tipo hoje?”


MEMÓRIA DO COTIDIANO Volume VIII Lúcio Flávio Pinto.


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sábado, 6 de agosto de 2022

Contra o Poder, Lúcio

 

Mas não foi só pelos aspectos pessoais que a morte de Paulo me abalou. Tive consciência imediata de que aquele crime não podia ficar impune. Havia uma escalada de violência na Amazônia, como em outros lugares do Brasil, em função dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Os proprietários de terras temiam especialmente a possibilidade de desapropriação de imóveis produtivos (o que acabou não acontecendo: pelo contrário, o capítulo constitucional da reforma agrária significou uma atraso em relação ao Estatuto da Terra, de novembro de 1964).

Por isso desandaram a desmatar para criar “benfeitoria”, nessa forma esquizofrênica de criar algo de menor valor no lugar do recurso natural mais valioso da Amazônia: a sua floresta. Assim, para que a presença do homem se confirme, o valor vigente é o da “terra nua”, o VTN do Incra. Daí o recorde de desmatamento em 1987 (80 mil quilômetros quadrados de mata nativa, segundo o polêmico relatório do Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de São José dos Campos, SP), como nunca houve (tanto) antes – nem depois. E a violência sem disfarces, que fulminou Paulo Fonteles e continuaria sua escalada a partir daí.”



Repórteres do jornal Sunday Times, de Londres, publicaram um livro pouco citado sobre Watergate (mas melhor, como esforço de compreensão, do que a bem documentada série da dupla Woodward-Bernstein, presa ao estilo minudente e historicista do jornalismo americano), mostraram como a imprensa, geralmente funcionando conforme decisões muito verticalizadas, pode ser impulsionadas por seus jornalistas quando eles compreendem sua função.

A função que justifica uma imprensa livre está na sua capacidade de procurar e revelar. Por vezes ela revela assuntos que seria melhor o público desconhecer, mas, se ela cessa de ter essa função, passa a existir o risco de ela não ser mais que um instrumento de propaganda”, observam os jornalistas ingleses. A propósito da polêmica que então se travava nos EUA, completam: “A questão central do debate sobre a imprensa não estava na luta entre “conservadorismo” e “liberalismo”, mas no conflito entre aqueles têm a capacidade de encontrar e de apresentar a tediosa complexidade do fato real”.

A “tediosa complexidade do fato real” a que os repórteres do Sunday Times se referem, com britânica ironia, é a bússola do jornalismo. Às vezes até gostaríamos que a realidade fosse mais esquemática e rígida, um pouco mais inclinada a favorecer pessoas ou grupos simpáticos a nós, ou que pelo menos não envolvesse tantas complicações, mas essa complexidade obriga um jornal a ziguezaguear, colidindo ora com a onda, ora com um banco de areia ou uma rocha.”


CONTRA O PODER 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica – Lúcio Flávio Pinto.


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quarta-feira, 20 de julho de 2022

Jornalismo na Linha de Tiro, Lúcio

Afastei-me completamente do noticiário sobre Santarém, evitando qualquer interferência, embora isso me causasse aborrecimento “inter pares”. Um deles me disse que o mínimo que eu deveria fazer era me demitir de um jornal que combatia meu pai. Respondi que era jornalista. É a única resposta que tenho a dar até hoje.”


Repórter Social – Conte-nos qual foi o seu pior momento exercendo a profissão. E, no polo oposto, qual foi o momento em que você pensou “vale a pena ser jornalista”?

Lúcio Flávio Pinto – No polo oposto, sem saber, ministro Delfim Neto me fez o maior de todos os elogios. Como pauteiro nacional de O Estado de S. Paulo, ajudei a desvendar a manipulação do índice de inflação de 1972, em pleno regime militar. Delfim chamou a Brasília um dos editores da seção de economia do Estadão para lhe dizer que o governo já havia se livrado de donos de jornal (presumi que a referência era a Niomar Sodré Bittencourt, do Correio da Manhã), de repórteres e de editores. Agora era a vez de pauteiros. O aviso me foi dado num fim de noite, após o fechamento da edição do jornal, em tom amigável (o portador, afinal, era uma pessoa no fundo decente), diante de uma testemunha preciosa. Passado o susto e o impacto, dei um leve sorriso, peguei as minhas coisas e fui para a casa, que ficava perto da sede do Estadão, andando pelas nuvens. Há melhor elogio a um jornalista honesto do que incomodar um poderoso de forma legítima?”


Rogério Almeida – A empresa no caso era a Camargo Corrêa?

A Camargo Corrêa teve um lucro líquido de 500 milhões de dólares na construção da hidrelétrica de Tucuruí. Sempre que posso toco no assunto. As pessoas não se indignam. Fico estupefato com a questão. No regime militar descobri que balanço de empresa é uma fonte preciosa de informação. Principalmente pelo que não está dito. O Banco do Estado do Pará foi eleito o banco do ano, em 1985, quando eu havia escrito que o banco estava cheio de irregularidades e fraudes. Que algumas das suas principais operações estavam erradas. E a revista Exame, uma publicação aparentemente de conceito, afirmava tratar do banco com o melhor desempenho do Brasil. Comecei a estudar balanço no início do regime militar, consultando gente que sabia de contabilidade. Em 1988 fui estudar o balanço da Albrás, a maior produtora de alumínio do país, a segunda do continente e a oitava do mundo, relativo ao exercício anterior. Concluí que só a variação cambial do empréstimo do Eximbank japonês à empresa, provocada pela paridade entre a moeda japonesa e o dólar relativamente à moeda nacional, que proporcionou a maior aplicação de capital de risco estrangeiro na história do Brasil, só a variação entre as moedas representava três vezes o orçamento do Estado do Pará. Perdemos três vezes o orçamento responsável pelo pagamento de 120 mil funcionários, o custeio dessa máquina e os investimentos no Estado. Consultei o cidadão que fazia o orçamento no Rio de Janeiro. Ele confirmou a minha constatação. Escrevi a matéria em O Liberal. Imaginava um escândalo nacional no seguinte. Não teve nada.”


O JORNALISMO NA LINHA DE TIRO (De grileiros, madeireiros, políticos, empresários, intelectuais & poderosos em geral) – Lúcio Flávio Pinto.


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